quinta-feira, 22 de junho de 2017

Dia dos Moços


Dia desses encontrei Rominho, de nome Romildo, caboclo forte, robusto, moreno e careca. Ah, me lembro muito bem o medo que esse menino tinha de ficar careca! Imagina? A homarada da família tudo careca e ele num ia ficar? Capaz!

Éramos amigos do tempo em que morávamos na roça. Nunca mais tinha visto ele, e, do nada, encontrei o caboclo perambulando pela rua, ora essa! Foi ele quem me conheceu, me gritou e veio com o mesmo sorriso fácil de sempre, pronto pra um abraço apertado. Diz ele que continuo o mesmo. Olha, não sei se isso é elogio ou não, mas contando o que já havíamos aprontado na infância e juventude, qualquer palavra dele é um elogio pra mim.

Conversa vai, conversa vem... E saiu da boca dele a Raquel. Ei, ai... E quem não se lembrava da Raquel?

Era Rominho, eu mais Tiago. O trio do sertão que galopava ligeiro e que tinha a pele queimada do sol, como se fôssemos mulatos. Chegava a brilhar o suor nos braços roliços. Hoje vendo esses jovens se acabando em academias, não têm a barriga dura igual a gente tinha naquele tempo. Dava pra contar os gominhos, mesmo não fazendo tanto sucesso quanto hoje. Nem eu nem Rominho preservamos os gominhos. Cheguei à conclusão quando o vi, que a vida é ingrata, mesmo sabendo que nós é quem somos ingratos com a vida. Custava ter preservado pelo menos os gominhos? As meninas até gostavam, mas quem fazia sucesso era Tiago. Como muda a vida! Rominho tá casado e já é até avô! Só falta falar que também usa dentaduras, aí seria derrota demais da conta!

Raquel, morena roliça, de pele brilhosa, coxa forte e bunda arrebitada. Jesus, o que era aquilo? Tinha idade pra ser nossa mãe, mas ainda bem que não era. E a danada gostava da coisa, de tudo de uma vez...

Quando ela chegava no pasto só soltava um assovio e nós três, em sincronia, olhávamos pra ela e saíamos correndo. Parecia até a mãe chamando, numa sangria desatada! E mesmo assim a gente nem corria quando a mãe chamava! Quem chegasse primeiro ganhava um beijo. Os outros não! Tinham que ficar esperando a vez, mas podiam ver tudo, serviço completo! Depois chamava o outro e depois o outro. Quem não estava na labuta ficava esperando, já em ponto de bala! Adivinha quem sempre ganhava o beijo? Rominho! Muleque comprido, canela fina e corria igual um cavalo. Ninguém ganhava dele! 

Qualquer lugar era lugar, no meio do pasto, na beira do rio, no meio das bananeiras, não importava, Raquel chegava com o lugar já escolhido e nós íamos seguindo em fila indiana, como filhotes de patinha a acompanhar a mãe rígida. Essa era a alegria dos moços da roça!

A gente esperava por esse dia, que às vezes demorava, às vezes eram dois ou três dias seguidos. O bom de ser nós três juntos é que quem ficava olhando, também ficava vigiando se avistava o Benito, o namorado de Raquel. Aquele sim era um armário perigoso. Nem preciso dizer nada dele. Apenas vivíamos a adrenalina do medo seguido de tesão. Mas vem cá, que vida chata de quem não tem aventuras, não é? Que histórias contaria pros filhos e pros netos? Rominho ria enquanto se lembrava de Raquel e do nosso medo do namorado dela, o Benito. 

Será que ela casou com ele? Só sabíamos que ela havia se mudado pra cidade e nunca mais pousou aquela bunda redonda na roça... 

Rominho se formou doutor advogado, família feliz, quase rico, escritório particular, carrão do ano... Eu continuo na mesma, não na roça, mas na cidade, no meu primeiro emprego, numa autoescola. Dando aulas. Quase trinta anos no mesmo lugar. Caramba, como o tempo passou e eu nem percebi! Poderia ter me formado também, ter tido uma casa boa, carro bom, mulher bem cuidada, filhos formados... Mas não, a única aventura de que me lembro era me aliviar com Raquel. 

Tiago, nem eu nem Rominho tínhamos contato mais. O que fez de Tiago?

Na época ele era o come-quieto, sabe? Aquele que surpreendia, que chegava pelas beiradas e fazia um estrago nos corações das moças. Também, loiro de olhos azuis! E era bonito, porque tem loiro de olhos azuis que é feio igual um diabo! 

E Raquel, que fim levou Raquel? E Benito, o noivo dela? 

Saudade daquele tempo, daquela roça com as pastagens verdinhas, os cavalos que a gente galopava sem arreio, na pele mesmo, da cachoeira gelada que fazia a gente encolher tudo, do pé de jatobá, ô fruta difícil de comer, mas a gente comia com gosto, porque era só apanhar e pronto. Do fogão a lenha, da horta verdinha, e do bananal, que maravilha! De manhãzinha, quando a gente acordava, ia na varanda, com a caneca de café, só pra ver o nascer do sol. Visão mais linda nunca vi igual! O céu azul escuro ia clareando, aos poucos o amarelo ia empurrando o azul pra cima, um clarão atingia nossos olhos e lá estava ele, todo imponente, majestoso, grande, quente! E a vida começava, dia após dia... 

Parece que foi ontem! Obrigada, meu amigo Rominho, por me trazer tantas lembranças boas!


Clara Lúcia

quinta-feira, 25 de maio de 2017

e-Book

Encantadores/Clara Lúcia/amazon


Depois de um tempo sem computador, voltando a postar. Obrigada a todos os meus leitores!

Falando sobre e-Books.
Eu não gostava. Ler livro de capa não tem preço! O cheiro do livro é afrodisíaco, folheá-lo é uma delícia, ler página por página até o final é maravilhoso!
Mas com toda essa tecnologia estamos diante do livro digital.
Já leram? Já baixaram o kindle? Se não, façam isso! A praticidade é ótima, livros e mais livros dentro do seu celular ou algum outro dispositivo, não usa muito espaço e você tem a leitura por onde você for. Divida seu tempo entre redes sociais e leitura de e-Books.
Experimentem!
Eu baixei o kindle e estou encantada!


Não é por eu ter lançado Encantadores que estou falando isso, mas pela praticidade e pelo preço excelente, tanto de lançamentos quanto de clássicos. Imagina ler Nelson Rodrigues, Machado de Assis e tantos outros pelo seu celular?
É fácil, prático, rápido e barato. Quer mais que isso?
Tentem! Dez minutos que você tem de folga, leia uma página de um livro pelo celular.

E se interessarem, Encantadores, por Clara Lúcia, na amazon.


quarta-feira, 19 de abril de 2017

Encantadores



Queridos leitores... Enfim, estou na amazon!

Encantadores... Um livro de contos com várias situações sobre relacionamentos onde o encanto é predominante para uma noite ou uma vida.
Pessoas especiais que, de alguma maneira, nos chamam a atenção. Carismáticos, sensuais e sensíveis...
Cativantes sem fazer nenhum esforço, nos roubam o prumo e nos proporcionam momentos encantadores, assim como essas pessoas são.
Não definimos pessoas encantadoras... Um olhar e já ficamos interessadas, um toque e já estamos encantadas, um beijo... Ah, um beijo...
Talvez sejam apenas pessoas certas no momento certo. O que importa é que queremos tê-las por perto.

Só entrar lá e procurar por Clara Lúcia Encantadores.
Boa leitura!

quarta-feira, 15 de março de 2017

Marinalva Das Dores



      Fazia um calor infernal na pequena casa sem forração, e o mormaço do fogão com as quatro bocas acesas provocavam suores que escorriam pelo rosto de Marinalva. Vez em quando enxugava as gotas com a manga da blusa, mas mesmo assim não parava de pingar suor em seu colo murcho. Depois de quatro filhos era impossível manter um corpo apresentável, e ainda mais com uma frágil saúde que obrigava Marinalva a se arrastar pelos cantos tentando deixar a casa em ordem.

      Aflita, olhava o relógio várias vezes. Não queria atrasar o almoço de Pedro José, o marido, sisudo, tímido, quase não falava e dificilmente sorria. Brincava com as crianças quando estava disposto, o que acontecia raramente. Não tinham diálogo íntimo. Marinalva não tinha disposição para nada a não ser cuidar da casa, dos filhos e reclamar de dores pelo corpo. Era dor que não acabava mais... Dia e noite dolorida... Virava na cama e, dormindo, reclamava. Pedro José nem dava mais ouvidos a ela. Cansou. Cumpria suas obrigações e nada mais. Marinalva ganhou, no último aniversário de casamento, um vestido florido, lindo, um par de sandálias com cristais, um botão de rosa, um perfume adocicado e duzentos reais, que era para ela comprar o que quisesse. Dedicada à família, preferiu comprar coisas para a casa. Isso irritou Pedro José, mas mesmo assim não reclamou. Já havia se acostumado com ela. Quando estava um pouco melhor, Marinalva até procurava por ele debaixo dos lençóis. Ele respondia aos seus carinhos, depois virava para o lado e dormia. Ela dormia tranquila quando tinham intimidade, acordava disposta, sorridente e ele tinha a certeza dela caprichar no almoço.

      Marinalva olhou o relógio e já havia passado dez minutos sem que Pedro José chegasse. Estranhou porque ele nunca se atrasava. Foi até a janela, respirou a brisa fresca, fechou os olhos e ouviu, ao longe, um casal de maritacas no topo de uma árvore, e no fim da rua crianças brincavam na maior gritaria. Se lembrou que seu marido sempre brincava um pouco com esses meninos antes de entrar em sua casa. Ela olhou para um lado, para o outro e nada de Pedro José.

      Serviu seus filhos, todos pequenos, e olhava sem parar as horas que passavam rápido demais. E nada de Pedro José. Não almoçou. Perdeu a fome e começou a ficar preocupada. Nem um recado nem nada!

      À tarde, no costumeiro horário de voltar para casa, Pedro José chegou, olhos vermelhos, cheirando a álcool e cigarro, cabeça baixa e sem falar nada. Marinalva segurou-o pelo braço e insistentemente perguntou o que estava acontecendo. Ele virou a ela e simplesmente disse que estava indo embora de casa. Não tinha explicação, só isso, ia se separar dela. O choque foi tão grande que ela caiu sentada no chão. Ele olhou para aquela cena que para ele era patética, foi para o quarto, arrumou algumas poucas coisas numa sacola velha, deu um beijo em cada filho e saiu pela porta sem olhar para trás. Depois voltou e disse a ela que não a deixaria sem dinheiro para cuidar dos meninos.

      Marinalva não conseguia reagir. Permaneceu sentada por um bom tempo... "Aposto que encontrou outra mulher, só pode, aquele fiii du'a égua!", cochichava, com cuidado para os filhos não ouvirem. Despencou num choro incontrolável... Os meninos, sem entender nada, mas acostumados a ver a mãe choramingar, sentaram ao lado dela e ali permaneceram. Marinalva, que geralmente não tinha forças para se levantar, se arrastou até a cama, apoiou-se na madeira e ficou em pé. Ainda chorando, se arrastou até a janela e soltou um grito.

      A vizinha Zuza, que varria a calçada, correu para acudi-la. Preocupada, entrou na casa dela para saber os detalhes de tanto choro e sofrimento. Marinalva, entre soluços e lamentações, contou o acontecido. Zuza, inconformada, começou a xingar Pedro José de todos os nomes possíveis, rogando-lhe praga e mais praga. Também deu sua opinião dizendo certeza ter sido alguma quenga que virou a cabeça dele. Marinalva ouvia e chorava aos soluços.

      Zuza se prontificou a ajudá-la no que fosse preciso, afinal tinha quatro filhos pequenos para cuidar e agora estava sozinha e tal. Já era noite, Zuza arrumou o que comer para os meninos, arrumou um prato para Marinalva e outro para si, e comeram em silêncio. Depois se despediu dela e foi tomar conta de sua casa.

      Zuza passou pelo seu portão e não entrou na sua casa. Foi para a casa da outra vizinha. Renata, que era um pouco mais velha e que não tinha filhos. Era só ela e o marido, outro com fama de mulherengo da vila. Pediu para entrar para conversarem e imediatamente contou tudo o que aconteceu com Marinalva. E emendou dizendo que foi bem feito, mulher que não se cuida, que vive reclamando, choramingando pelos cantos, que não penteava nem os cabelos, imagina que um homem iria aguentar uma vida dessa? Repetia várias vezes até espumar o canto da boca. Renata concordava e aumentava mais um conto, lembrando de algum causo em que viram o marido de Marinalva entrando em uma casa na rua de baixo de onde morava, onde sabiam que morava uma mulher que não era bem vista pelo bairro. "Aposto que ele foi morar lá!". Repetia. As horas passavam e Renata convidou Zuza a ir embora, pois já estava tarde e o marido dela já devia estar preocupado com sua ausência. "Que nada, aquele lá só sabe dormir quando chega de tarde!".

      Marinalva, com todos os problemas enfrentados e tendo que conviver com a fibromialgia, teve ajuda de parentes e alguns amigos para seguir em frente. Cada um ajudava um pouco e nada lhe faltava em casa. Pedro José visitava os filhos de vez em quando e sempre levava um pouco de dinheiro e mais algumas coisas para a casa. Nunca disse onde estava vivendo e nem com quem. Desconversava, e se Marinalva insistisse, dava um jeito de ir embora na mesma hora.

      E assim Marinalva foi vivendo, com a mesma feição de coitada, cabeça meio baixa, triste e insatisfeita, como Deus quisesse, ela repetia a quem perguntasse como estava.

      Zuza e Renata eram as vizinhas que mais ajudavam com a limpeza da casa e algum outro trabalho pesado que ela precisasse, mas a língua corria solta quando viravam as costas.

      Coisas da vida.