quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

Trilogia 50 Tons... - Comentado por um Homem



Por Ricardo Jordão Magalhães

"A não ser que você tenha tirado umas férias em Marte, não tenha nenhuma amiga mulher na sua vida, ou faça parte do Clube do Bolinha, você provavelmente já ouviu falar do livro 50 Tons de Cinza.
50 Tons de Cinza é o conto de fadas do Século 21. O livro conta a história de Christian Grey,
um jovem bilionário, brilhante, maravilhoso, ultra lindo, intimidador,... Super bem sucedido, um líder nato dos seus funcionários que ainda ajuda os pobres, piloto do próprio avião, fiel, super atencioso com as mulheres, um cara super bom de cama que se apaixona por uma menina de 22 anos totalmente tapada, virgem e que nem é o supra sumo da beleza feminina.
Eu prefiro acreditar que o livro vai salvar o casamento de muita gente que precisa ler o livro do jeito que foi escrito para aprender alguma coisa.
Quem sabe?
Agora, por que o livro é um sucesso?
50 Tons de Cinza foi escrito por uma mulher, inglesa, esposa, mãe de dois filhos.
85% das leitoras que se dizem apaixonadas pelo Christian Grey são mulheres, casadas e mães.
O que isso diz a você?
Para mim só tem uma resposta, existem milhões de mulheres em todo o mundo sendo super mal-tratadas, mal-entendidas e mal-amadas por milhões de homens modernos e toscos tipo Fred Flintstones 2.0.
O sucesso do livro 50 Tons de Cinza deve ser visto como mais um alerta para os homens.
Meses atrás eu fiz uma palestra em um evento fechado para 6 mil homens. O evento, bolado pelas mulheres da comunidade, reuniu seus maridos, filhos, cunhados, pais, sogros etc.
As mulheres da comunidade levantaram os temas que os homens deveriam se aperfeiçoar e convidaram palestrantes para falar a respeito. Eu fui até lá para falar sobre empreendedorismo, e o psicólogo que subiu ao palco depois de mim foi até lá para ensinar os homens como tratar uma mulher. O cara falou sobre como conversar com uma mulher, como fazer carinho em uma mulher, como beijar uma mulher, como tocar uma mulher, como inspirar uma mulher etc etc etc.
Na hora eu achei meio bizarro aquele monte de marmanjo metido a besta não saber nem como beijar uma mulher, mas a grande verdade é: os relacionamentos entre as pessoas hoje estão uma tristeza. Tudo joga contra para detonar as coisas. É preciso muita boa vontade de ambos os lados para fazer a coisa dar certo.
Como homem que sou, eu entendo um pouco da minha raça e imagino que a galera até sabe o que precisa fazer pelas mulheres, o que eles se perguntam é, “E vale a pena fazer todo o esforço para conquistar a mulher?”.
Bom, cabe a cada um descobrir essa resposta por si mesmo, mas uma coisa eu digo, se você não tratar bem o seu cliente, o concorrente vai encontrar uma maneira de tratá-lo bem.
Já que os homens não vão ler o livro, eu vou facilitar a vida de vocês e listar por aqui as razões porque as mulheres amam o Christian Grey:
1. Porque o Grey elogia a mulherada o tempo todo. Toda mulher quer se sentir sexy e maravilhosa. Os homens de hoje elogiam tão pouco as mulheres que ao fazê-lo, a mulherada já acha que o cara fez algo de errado. Então, coloca na cabeça a meta de crescer em 500% o número de elogios que você faz para a mulher que você ama. Diga à ela que você admira a atenção e dedicação que ela coloca na educação dos filhos mesmo ela tendo que dividir o seu dia entre trabalhar fora e cuidar da casa. A maioria das mulheres vivem preocupadas com a falta de feedback que recebem dos homens. Tire esse peso das costas da mulher, dê feedback! Para elas nós somos um mistério porque falamos muito pouco. A mulher precisa e quer saber a sua opinião sobre as coisas. Todo mundo precisa ouvir elogios, capricha nessa parte!
2. Porque o Grey faz a coisa acontecer. O FDP do Christian Grey além de pilotar um avião ainda sabe como consertar um ar condicionado. Mulher gosta de cara que resolve as coisas, tipo “Pode deixar que eu vou resolver isso em 2 horas” e “Pode deixar que hoje eu dou banho nos filhos, e coloco a turma para dormir”. O cara que só sabe encontrar a seção de batata frita em um supermercado e sintonizar o canal de esportes na televisão, tá danado. O homem precisa assumir a gerência de manutenção da casa e da família e fazer a coisa acontecer. Sim, todo mundo tem no mínimo dois empregos, aquele que traz o dinheiro para casa e aquele que traz o amor para dentro do seu lar.
3. Porque o Grey cria momentos de romance. Antes do sexo a mulher precisa de amor, antes do amor a mulher precisa de romance. Todo relacionamento esfria com o tempo, mas ninguém deseja para si um relacionamento frio onde as coisas são entediantes e sem paixão. Para mudar isso, o cara precisa dar 100% de atenção quando estiver presente. Ouvir mesmo, elogiar mesmo, dar a entender que qualquer pequeno gesto da mulher é a coisa mais maravilhosa do mundo. Uma das coisas mais irritantes do livro é a quantidade de vezes que o cara elogia a menina porque ela morde os lábios quando ela está envergonhada ou qualquer coisa do tipo. No primeiro livro isso acontece 46 vezes. Mas é isso, todas as pequenas coisas contam.
4. Porque o Grey se importa com a mulher. A verdade é que a grande maioria dos Fred Flintstones que tem por ai procuram uma mulher para substituir a mãe deles. O cara acha que a mulher tem que servi-lo e fazer tudo do jeito que a mamãe dele fazia quando era criança. BANDO DE BABACAS!!! O papel do cara é empurrar a mulher para frente. Incentivá-la a malhar, fazer o cabelo, comprar roupas novas, se alimentar direito, se preocupar com a sua saúde, e, claro, a satisfazer sexualmente e não apenas a si mesmo. E MAIS, o cara tem que fazer tudo isso sem que a mulher DIGA QUE ELE TEM QUE FAZER. Sim, é isso mesmo, o homem tem que ler a mente das mulheres. Fácil, né?
5. Porque o Grey tem seus problemas. Apesar das inúmeras virtudes, características e clichês de príncipe encantado, o cara não é perfeito - longe disso. Ele sofreu trocentos abusos quando era criança que afetaram drasticamente a maneira que ele se relaciona com as pessoas - nada muito diferente de qualquer homem que eu conheço. A heroína da história, por sua vez, apaixonada pelo cara que sempre faz a coisa acontecer, a elogia sempre, cria momentos de romance a todo momento e se importa com ela como mulher, acaba se vendo na responsabilidade de consertar o cara. Toda mulher que se preza acha que vai consertar os homens. É por isso que a mulherada se mete em relacionamentos furados, elas acham que podem mudar o homem. Kkk. Não rola. O ponto aqui é que ninguém precisa ser perfeito, mas todo mundo precisa se importar um pouco mais, ou muito mais, com aqueles que estão próximos da gente para que possamos pedir o mesmo em retorno.
Os relacionamentos no Século 21 estão quebrando ou se quebrando e cabe a VOCÊ consertar isso.
A sociedade que queremos deixar para os nossos filhos e netos DEPENDE da qualidade dos relacionamentos que estamos construindo hoje. Se estivermos de bem com quem está próximo de nós, vamos conseguir tratar com amor as pessoas que encontramos nas ruas, nas empresas, nos clientes, em todo lugar." 



Então, eu não li os livros, mas assisti ao 50 Tons... Não concluí o filme todo de primeira, depois, noutro dia, assisti tudo até o final. Livro é diferente de filme, e creio que o livro deve ser bem mais detalhados, não é?
Quem sabe eu mude de ideia e vá assistir 50 Tons Mais Escuros? Aí farei um texto com meu parecer. Só sei que a mulherada fica em pavorosa com esse tal de Sr.Grey... E por que não ficaria?

Texto publicado em 14 de junho de 2013.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Barulhinho


      - Me diga, Dra Camila, não existe um aparelho sem esse barulhinho medonho não?

      - Existe, só que é três vezes mais caro, e ainda não tenho previsão pra comprá-lo.

      Tá bom então. Mais uma vez me deito na poltrona, mais parecida como uma cadeira erótica daqueles vídeos... Bem, isso não importa. Respiro fundo e cruzo os braços. Dra Camila se prepara, como se fosse a um desfile da paz, toda de branco, com luvas, máscara e óculos. Num piscar de olhos já está sobre mim com aquele espelhinho que não sei qual o mistério que há nele que não embaça de jeito nenhum. Se embaça, creio eu que ela enxerga muito bem. Logo depois vem os palitinhos a cutucar meu dente. Dessa vez foi o lá de trás. Ainda se sentindo desconfortável ao me manipular, aperta um botão, depois outro e outro e estou praticamente de cabeça pra baixo na cadeira. Sinto meu estômago empurrar meus pulmões, mas vamos em frente.

      Mais um suspiro e Dra Camila se distrai com a secretária que lhe conta algo que não entendo. Piadas internas de consultório. Elas riem e imediatamente a doutora se concentra em minha boca aberta.

      A secretária Valéria, também com a máscara, liga o sugador e coloca no canto de minha boca. Sinto que minha bochecha, pelo lado de dentro, é sugada até fazer um côncavo do lado de fora. Imediatamente ela ajeita e o aparelho volta a chiar normalmente. Fecho os olhos e clamo por Jesus, pra que não me abandone nessa hora de angústia. Sei que Ele está por perto segurando minhas mãos, que nesse momento estão grudadas nos meus antebraços, como se eu estivesse pendurada num penhasco e eu mesma me segurando pelo braço pra não despencar. Aperto tanto as mãos que parecem estar hermeticamente presas aos meus braços.

      Dra Camila liga o tal aparelho barulhento e começa a tortura. Ah, mas antes ela enfiou uma agulha com anestesia na raiz do dente danificado. Vontade de morder a bochecha e não sentir nada, mas como a boca está aberta, isso nunca é possível fazer. Ela me pergunta se está tudo bem, eu afirmo que sim, mas é só um gesto involuntário da cabeça, por dentro estou numa angústia sem fim. Então, com o aparelho ligado começa a cutucar meu dente. Gente, pra quê ter dente se com o tempo temos que passar por tortura? Por que o dente não é como uma unha, que estraga, cai e nasce outro, infinitamente, até a morte? Mas, quem sou eu pra questionar a obra de arte do Altíssimo, né? Continuando com aquele barulhinho, fecho os olhos de novo e tento não pensar onde estou. Penso em quem numa hora dessa? Vou pensar em comida, que é um grande prazer que eu tenho. Não dá! Penso... Melhor continuar respirando e contar os minutos pra tudo acabar bem.

      Nossa Senhora, onde está a Senhora que não vem cuidar dessa sua filha que só tem tamanho? É claro que ela está por perto, caso aconteça a passagem já estará ali me esperando de braços abertos. Não, melhor pensar em trabalho, em planos, em contas...

      Fico de olhos fechados na esperança de tirar um cochilo e acordar quando tudo estiver acabado, mas que nada! O aparelho britadeira continua a percorrer o assoalho do meu dente, cavucando até chegar na China do meu queixo. Bendita anestesia que me dá tranquilidade de não sentir dor nenhuma, mas o que incomoda é o barulho, esse sim, não é de Deus. Nem dá pra dar uma olhada nas horas pra saber se já passou muito tempo ou se ainda falta muito tempo pra acabar...

      Num minuto relaxo e a imagem daquele homem lindo, amigo querido, tudo de bom aparece na minha mente... Ele me olha e sorri, consigo relaxar as bochechas parece que as duas mãos de Dra Camila estão dentro de minha boca. Volto pro rapaz que continua sorrindo pra mim, olhos brilhando... Aquele sorriso lindo... E me animo a continuar o tratamento sem reclamar pra poder beijar aquela boca carnuda e deliciosa... opa, isso é história pra um outro texto.

      Percebo que Dra Camila começa a encher minha bochecha de algodão. Sinal que o aparelhinho terminou seu serviço. Um jato de ar, uma cutucada aqui, outra li, uma mini pá pra misturar o reboco e pronto, tudo colocado dentro do buraco do dente. Respiro quase aliviada. Depois ela coloca um aparelho roxo em cima de mim, liga uma luz intensa, soa três sinais e pronto. Retira os algodões, enche minha boca de água e o sugador é percorrido por todo o lado. Não fica nenhuma gota. Vez ou outra é encostado na garganta. Fico com medo da secretária querer enfiá-lo guela abaixo, só pra ter certeza que não ficou nenhuma gotinha de água por lá. Pior, e se me der ânsia nessa hora? Enfim, nada aconteceu.

      O sugador é desligado. Sinal que a tortura acabou. Abro os olhos e Dra Camila diz que está prontinho, que acabou, que talvez o dente doa no outro dia, mas que tudo ficou perfeito. Que bom! Imagina ter que cutucar ele de novo, noutro dia? Imagina ter que arrancá-lo e ficar com aquele espaço vazio? Nem poderia sorrir mais! Tento desgrudar minhas mãos dos antebraços e imagino que tenha até feito aquele barulho de destampar algo com sucção. A cadeira volta ao seu lugar normal, a luminária é apagada e tenho certeza que irei embora.

      Primeira coisa, morder a bochecha do lado onde foi anestesiado. Será que só eu faço isso? É claro que ela vai doer quando acabar a anestesia... Mas é a bochecha e não o dente.

      Como é que um aparelhinho tão pequenininho, tão indefeso pode mexer tanto com a gente? O problema não é o aparelho e sim o barulhinho medonho que ele faz. Às vezes tenho a impressão que a anestesia vai acabar assim, do nada, e ele, com vida própria, vai enfiar fundo no nervo do dente me levando ao desmaio ou coisa pior. Bem, pra isso Nossa Senhora fica ali de guarda. Imagine então que a Dra espirre e não dê tempo de desligar o aparelho e com isso ela perfure toda minha língua e estrague todos os dentes ao redor. Imagina?

      Pra quem acha que tudo isso é exagero, é sim, exagero. Pessoa ansiosa pensa exatamente assim, mesmo quando a gente tenta se controlar ao máximo. Eu nem sabia que era ansiosa até ler sobre o assunto. Esquisito, mas nossa mente não para nunca e uma coisa puxa a outra e no fim acontece só o primeiro ato, a primeira cena e acaba ali mesmo.

      Algum leitor é ansioso também?

      Me lembrando aqui que meu primeiro emprego foi como secretária de um dentista... tsc, tsc, tsc...


quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

Quando Os Olhos Falam


      Já passava das das vinte horas quando Lívia começou a se despedir de todos à mesa para ir embora. Imediatamente Lucas a puxou pelo braço e pediu que ficasse mais um pouco. Eram amigos há alguns anos e sempre se encontravam, com mais três amigos também, para uma rodada de cerveja e petiscos. Aos poucos cada um foi se retirando permanecendo apenas os dois e Diana. Diana era amiga de Lívia e quase não participava da reunião deles. Especialmente neste dia havia bebido muito e certamente precisaria de ajuda para voltar para casa. A incumbência ficou por conta de Lívia, que se sentia responsável por Diana ser mais nova e frágil quando bebia álcool. Nada exagerado, porém Lívia se sentia culpada por induzir a amiga a beber de vez em quando.

      Lívia, com as bochechas rosadas e os cabelos um pouco grudados na cabeça devido ao calor de verão, deu um beijo no rosto de Lucas para se despedir, como sempre fazia. Lucas não era de beber demasiado. Era o responsável da turma e sempre levava todos para suas casas. Nesse dia não levaria ninguém, como havia combinado antes de se sentar à mesa. Tinha um compromisso mais à noite e não mudaria sua rota desde então. Lívia, ainda encostada no rosto no de Lucas, demorou um pouco para concluir o beijo. Na verdade quem demorou foi Lucas. Se afastaram e se olharam... Olhar profundo como jamais haviam se olhado antes. Não era aquele olhar carinhoso ou cuidadoso, era diferente... Lívia suspirou, continuou firme pesquisando o fundo dos olhos de Lucas. Mexia os olhos descontroladamente, observando as sobrancelhas, o nariz, a testa, os lábios... Cada detalhe daquele rosto tão conhecido. No instinto, ela entreabriu a boca, como se esperasse um beijo, e Lucas, hipnotizado, retribuiu o olhar e segurou o rosto de Lívia, abaixo da orelha e acariciou a bochecha com o polegar. Estavam muito próximos um do outro... Ele fixou seu olhar nos lábios dela e se aproximou. Lívia fechou os olhos e se entregou, mas antes de tocar seus lábios nos de Lucas abaixou a cabeça, segurou nas mãos dele, pediu desculpas e se afastou. Olhou para Diana, que estava com os olhos arregalados, queixo caído e não sabendo o que fazer. Lívia sorriu, pegou na mão da amiga chamando-a para irem embora. Moravam há poucas quadras do bar em que estavam, portanto iriam à pé. O sol aos poucos anunciava o início da noite, proporcionando uma cena belíssima estampada num alaranjado escuro com pitadas de vermelho e marrom a sua volta. Lívia suspirou, caminhou olhando para o chão e sem falar uma palavra. Lucas ficou observando as duas se afastarem, apoiando os cotovelos na mesa.

      Lívia nunca havia percebido, mas Lucas, quando tinha a oportunidade de estar no mesmo ambiente que ela, não desgrudava em nenhum momento. Quando chegava e não havia cadeira vazia perto dela, fazia com os demais se afastassem até se acomodar ao seu lado. Lívia se divertia dizendo que ele era seu protetor, que quando estava com ele estava com Deus. e ele olhava para Lívia com aquele olhar profundo e enigmático, mesmo tentando mostrar a ela o que cabia dentro daqueles olhos além da doce amizade de anos.

       Lívia, no caminho para casa e sem prestar atenção no que Diana estava lhe falando, suspirava e sentia o coração pulsar rápido. Medo e vergonha era o sentimento que tomava conta dela, uma paixão momentânea por um amigo querido. Jamais imaginou se relacionar com Lucas de um modo que não fosse somente amizade.

      Lívia, percebendo que os olhares de Lucas ultimamente não eram mais inocentes como antes, suspirou e mordeu o lábio inferior. Não sabia o que pensar e nem o que dizer a ele num próximo encontro. Abaixou a cabeça, cochichou sem deixar Diana ouvir, como se quisesse falar para si mesma, que tudo isso era besteira, que estavam sob o efeito do álcool e que tudo continuaria como antes. Respirou aliviada, chegou na sua casa, se despediu de Diana e entrou feliz. Diana seguiu mais uma quadra, onde morava com seus pais.

      Cantarolando e se distraindo com suas coisas, Lucas não saía da mente de Lívia. De repente se via pensando nele, suspirando, boca seca e coração acelerado. Depois se levantava, disfarçava a petulância por ter tido pensamentos quase pervertidos e continuava sua rotina de distrações.

      Os dias se passaram, Lívia estava tranquila quando aos suspiros por Lucas, até se encontrarem ocasionalmente na rua de sua casa. O acaso era o que ela pensava, mas Lucas foi procurá-la. De longe viu o amigo caminhando com as mãos nos bolsos, vez ou outra ajeitando a franja lisa que tapava parte de seus olhos e estampando um largo sorriso ao avistá-la. Lívia, desconcertada, tentou não ter uma síncope com o coração querendo saltar para fora do peito. Sorriu acanhada e caminhou olhando mais para o chão, por vergonha de olhar novamente aqueles olhos cor-de-mel que soltaram faíscas na última vez em que foram olhados. A uma quadra de distância, Lucas parou, cruzou os braços e ficou esperando Lívia se aproximar. Ela, percebendo o longo caminho a percorrer até ele, suspirou, sentiu a boca seca e continuou. Não conseguia disfarçar o largo sorriso e as bochechas já coradas, por causa da timidez. Chegou à frente de Lucas, olhou de novo o fundo daqueles olhos, entreabriu a boca, como se esperasse mais um vez um beijo. Lucas, continuando do ponto onde parou dias atrás, no último encontro, pegou o rosto de Lívia, tocando em seu pescoço e acariciou a bochecha com o polegar. Fixou os olhos nos lábios dela e beijou-a ternamente. Lívia se entregou sem  remorso... Se abraçaram e ficaram parados no tempo, de olhos fechados, sentindo o coração pulsar...

      — Minha ceguinha... Até que enfim percebeu, né? — ele sussurrou no ouvido de Lívia...


❤❤❤


Um Feliz Natal a todos, um Ano Novo repleto de esperanças e realizações. Fiquem com Deus e até!

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Perfume Adocicado


      Contados exatos dois meses, Ariela finalmente alcançou a coragem em entrar no quarto que era de sua mãe, Dona Hortência, que nos últimos meses, por falta de opção, viveu seus últimos dias no asilo São Tomé de Deus. Eram somente mãe e filha morando numa cidade pacata. Todos os parentes estavam muito longe, na cidade grande. Ariela, por ser concursada em Pedagogia, escolheu a tranquilidade de ter ar puro e silêncio para viver com sua mãe. Mas nem tudo saiu como o esperado. Dona Hortência não podia mais viver sem acompanhamento constante, obrigando assim Ariela a deixá-la sob os cuidados de pessoas estranhas no único asilo daquela cidade.

      Ariela visitava a mãe todos os fins de semana, e vez ou outra levava-a para sua casa, para rever seus pertences e matar a saudade de uma comida caseira e especial. Eram como irmãs e Ariela sofria por ter que deixar Dona Hortência com estranhos. A mãe dizia que era feliz no novo lar e que a filha não precisava se preocupar com nada. Às tardes jogava bingo e tomava chá com amigos. Riam e dançavam, depois se recolhiam aos quartos coletivos. Era tudo limpo, mas na verdade Dona Hortência não era mulher de ficar reclamando. Sentia solidão, muita solidão todos os dias. Não queria ter seus objetos por perto por medo de ser roubada. Não confiava nas pessoas tanto assim.

      Naquele quarto vazio Ariela sentiu o cheiro de mofo, de roupa guardada há anos, de pó nos móveis que a fez espirrar seguidamente. Por fim amarrou um lenço tapando as narinas para, enfim, retirar as roupas e doar a quem precisasse. Isso era uma ordem de Dona Hortência para quando ela morresse.

      Ariela não sentiu vontade de chorar, mesmo quando apertava algum vestido de sua mãe em seu peito. Ela pensou que sofreria mais, mas estava tranquila e até conformada com a ausência da mãe. Tinha saudades, e teria para sempre, mas não doía tanto quanto imaginava. Por momentos pensou ser fria como uma pedra de gelo, mas talvez pela vida solitária em que sua mãe passou os últimos momentos, sabia que agora Dona Hortência poderia estar num bom lugar, junto com os seus já falecidos.

      Certamente doaria tudo para o asilo de sua mãe, era assim que o chamava.. Ariela pegou roupas, sapatos, perfumes, talcos, maquiagens, esmaltes, bijuterias, tudo que sua mãe usava. Antes, claro, teve o cuidado de deixar tudo limpo e perfumado. Chegando lá, a primeira cena que viu foi uma senhorinha encostada no portão. Cumprimentou-a e perguntou se ela estava esperando alguém. Ela respondeu que sim, que seu filho logo chegaria. Ela usava batom cor-de-rosa e um perfume adocicado e enjoativo. Ariela sorriu, fechou os olhos e foi como se sentisse sua mãe por perto, devido ao perfume doce. Parecia ser o mesmo que estava na mala, o mesmo que sua mãe usava. "O perfume acabou de encontrar sua dona...", pensou Ariela. Ela entrou carregando com dificuldade a mala cheia com os pertences de sua mãe.

      As voluntárias que lá estavam receberam Ariela com alegria e, num abraço apertado, agradeceu pela gentileza em levar os objetos de Dona Hortência para lá.

      Ariela parou no corredor e, pela janela, ficou olhando o jardim. Não era dia de visitas e os idosos estavam sentados, cada um em um canto, olhando para o nada e sem se comunicarem uns com os outros. Ariela estranhou não encontrar aquela alegria descrita por sua mãe, dos jogos, brincadeiras, risadas e tudo o mais. Resolveu caminhar por eles e conversar um pouco com cada um.

      Um senhor que estava na cadeira de rodas, ficava o tempo todo com a boca aberta e vez ou outra, limpava a baba que escorria. Tinha os olhos lacrimejantes que pareciam olhar para o horizonte avistando a morte. Apenas esperava por ela. Não muito adiante, um outro senhor se entretinha com um livro. Ariela percebeu que ele passava as páginas rapidamente, impossível de terem sido lidas. Nesse instante uma enfermeira chegou até ela para acompanhá-la no passeio. Sem que Ariela perguntasse nada, Fabiana, a enfermeira, começou a contar sobre cada um. O senhor do livro não sabia ler, mas sempre foi tão encantado por livros que não se importava com esse detalhe; gostava de folhear as páginas e depois repetia todo o processo. Ariela pensou que poderia, de vez quando, voltar para ler para ele. Perguntou sobre o senhor da cadeira de rodas. Fabiana disse que ele tinha Alzheimer e que se lembrava apenas de sua infância, cada vez mais remota. Ninguém o visitava há anos... Depositavam o valor da mensalidade e pronto. Ariela perguntou sobre a mulher no portão. Fabiana disse que o filho morava há três quadras dali e que dificilmente ele vinha visitar a mãe. Mesmo assim ela ficava esperando por ele todos os dias e quando começava a escurecer, ela entrava, jantava e se recolhia para dormir. Balbuciava algumas palavras lamentando o filho não ter vindo naquele dia e logo dormia. No outro dia tudo se repetia.

      Ariela sentou ao lado de uma senhora que calmamente crochetava, sem saber definir o que seria. Era uma capa para bule de café, dizia ela, sorrindo para Ariela. Mostrou os detalhes e disse que todos os dias fazia a metade de um, que depois eram vendidas no bazar que faziam no asilo. Ficava feliz em poder ajudar de alguma maneira. Dona Antonieta, o nome dela, não tinha família e resolveu esperar pela hora da morte junto a pessoas. "Que triste morrer e ninguém saber", dizia ela, que imaginava seu corpo apodrecer até acabar o último resquício de carne e só depois algum vizinho sentir sua falta. Ariela pegou suas mãos e as beijou. Dona Antonieta acariciou seu rosto e disse que se sua filha estivesse viva seria assim, como ela.

      "Truco!", Ariela voltou-se para ver quem gritava quebrando aquele silêncio. Era Gumercindo e Antunes, que jogavam baralho o dia todo. Eram os únicos que se enturmavam nos dias comuns. Eram amigos de longa data e se reencontraram no asilo. Haviam feito o Tiro de Guerra na juventude e guardavam lembranças preciosas. Para Fabiana, esse reencontro foi a melhor coisa que havia acontecido no asilo nos últimos anos. Eram eles que animavam a turma nas festas. Mas o que animava mesmo os idosos eram os familiares que apareciam em dias de visita. Todos os dias poderiam ter visitas, mas se compreendia que a família precisaria trabalhar para sobreviver.

      Ariela perguntou para Fabiana se ela teria coragem de internar sua mãe num asilo. Ela apertou os lábios, abaixou os olhos e disse que se precisasse, sim, internaria. Mas sabia que dizia isso por não ter mais a mãe por perto, que havia falecido quando ela era bem pequena. Aquele amor de mãe ela não sabia como era. Talvez por isso respondeu tão rápido a pergunta.

      Ariela passou a tarde toda com os idosos e se sentiu muito bem. Poucos se lembravam de Dona Hortência.

      À noite, quando colocou a cabeça no travesseiro, orou, chorou e pediu perdão à mãe. Arrependeu por não ter criado uma outra alternativa para manter Dona Hortência por perto até seu último dia. Mentalmente começou a calcular quanto seria contratar uma cuidadora. Não, não seria possível com o salário de Pedagoga. Chorou durante algumas horas e depois adormeceu.