quarta-feira, 30 de novembro de 2016

A Cristaleira



      Depois de passar o fim de semana na casa de uma irmã mais velha, em outra cidade, Nair voltou para sua casa, cansada, louca para deitar em sua cama e dormir um pouco. Depois dessa viagem, ela constatou que não tinha mais idade para tanta aventura, mesmo a cidade ficando a 3 horas de distância. Não tinha mais paciência em ficar sentada dentro de ônibus por tantas horas, com gente conversando o tempo todo, crianças gritando, chorando, comendo, enfim, Nair sabia que estava velha.

      Era a primeira vez que ela viajava sozinha depois de ficar viúva. Passados exatos dois anos, sua única filha a incentivou a respirar novos ares, a conversar com a irmã que não via há anos, a passear e distrair a cabeça com outra rotina que não fosse a sua. Por tanta insistência ela aceitou, mesmo a contragosto, só para agradar a filha. Nair era assim mesmo, não sabia falar não, mas não significava estar satisfeita com a situação. Não gostava de confusão, nem de discussão e nem de desagradar as pessoas. Era uma senhora tranquila que sofria por não se impor, acabando por fazer o que não queria. Nair sofria e chorava, escondida em seu canto, sua casa, seu quarto, sua cama e seu travesseiro que agora fazia as vezes de seu amado Odair. Que falta ele fazia em sua vida!

      Ainda não havia superado a perda dele, mesmo tendo o apoio de pessoas queridas que sempre estavam por perto para distraí-la, confortá-la e ajudar no que fosse preciso. Era a recompensa por ter sido uma mulher cuidadora. Às vezes se sentia constrangida, pois nunca soube o que seria ser cuidada. Tipo de mulher que nasceu para cuidar, e o fazia muito bem.

      Chegando em casa, Nair levou um susto! Sua louça e sua prataria não estavam no lugar de sempre, em sua cristaleira antiga e reformada. Ficou estática olhando e esperando alguma explicação da filha Roberta.

       Mãe, amanhã chega a prataria novinha e a louça moderna para enfeitar essa cristaleira. Tudo estava tão velho que eu resolvi doar para umas pessoas carentes. A senhora vai ver como vai ficar lindo!  disse, com entusiasmo, para a mãe.

      Nair só deu um sorriso acanhado, entortando a boca para um lado, abaixou a cabeça e foi para seu quarto. Desabou na cama e chorou... — "Mas que petulância da Roberta que nem sabe nada da vida e vem pegar minhas coisas e dar pra quem eu nem conheço! Não basta ela ter suas coisas e agora vem intrometer nas minhas?" — Pensava, soluçando baixinho para que Roberta não a ouvisse.

      Se levantou, foi até o maleiro do guarda-roupas e tirou uma caixa onde guardava fotos antigas. Despejou em cima da cama e achou uma de seu casamento, época que tinha o costume de colocar os presentes sobre a cama. Lá estavam sua prataria e suas louças. Chorou e apertou a foto em seu peito, fechando os olhos e se lembrando daquele momento único.

      Nair lembrou de cada detalhe, de cada peça ganhada, todas inteiras e brilhantes. A prataria ganhou de uma das madrinhas que era mais bem de vida. Nunca foi usada, por dó e por medo de estragar. Não era uma prata de boa qualidade, mas brilhava como um espelho. A louça antiga, conjunto para seis pessoas, continha pratos rasos, pratos fundos, xícaras de chá e xícaras de café, além de uma sopeira que parecia ser trabalhada à mão de tão perfeita. Era branca com desenhos delicados de rosas cor-de-rosa e um filete dourado nas bordas. Pelo tempo e pelo uso haviam alguns trincados e uns lascados nas bordas. Nair ganhou da avó e eram o seu xodó, que agora habitavam outros lares. Seriam lares ou seriam apenas casas com pessoas desorganizadas e mal-cuidadosas? Talvez já estivessem até quebradas pelo mau uso. Nair chorou de soluçar só em imaginar a cena de um prato espatifado no chão.

      Nunca perdoaria a filha por essa atitude. Mas depois de pensar muito resolveu não tocar no assunto e continuaria vivendo até seus últimos dias com esse nó na garganta.  "Que os dias sejam breves e curtos"  pensava Nair. Por pirraça, ela resolveu doar também a cristaleira para uma parente distante, que sabia ser caprichosa em sua casa e que deixava tudo bem arrumado e conservado.

      Resolvido o problema, Nair foi decaindo aos poucos, dia a dia, e sempre quando estava sozinha em seu quarto suas orações eram direcionadas ao amado Odair, para que viesse lhe tirar dessa vida e levá-la para junto dele. Não queria mais viver, não queria mais passar pela sala e ver aquele vazio onde ficava a cristaleira com sua prataria e suas louças. Como doía lembrar que Roberta lhe arrancou um sentimento! Que ousadia da filha mexer em seus objetos e decidir o que fazer! Por que não esperou que morresse? Poderia até jogar tudo fora de uma vez, mas esperasse pelo menos ser enterrada. Nair tinha pensamentos depressivos e a cada dia que passava andava com a cabeça mais baixa, passos lentos, sem se cuidar e sem se alimentar como deveria. Perdeu o encanto da vida...

      Nair, com sua paciência e bondade, nunca mais saiu de casa a passeio. Queria esperar a morte perto do pouco que lhe restava, que agora estava trancado em seu guarda-roupas, escondido. Poucas lembranças que ornavam alguns objetos carregados de valor sentimental. Valor da vida, de décadas vividas, de choros, risos, sofrimentos, alegrias, de dores, de cores, de cinza e de branco, como aquele vestido todo rendado, acinturado, com um véu de tule que lhe cobria toda a parte de trás e se arrastava pelo chão, recolhendo todo farelo e grãos de sujeira que estavam no caminho ao altar, onde viveu o momento mais feliz de sua vida. O dia decisivo para uma união duradoura, de amor, de respeito, de companheirismo, e que agora o "até que a morte os separe" se fez valer.

     

      Texto publicado em 29 de julho de 2014 - Editado

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Geraldo Pelotão

Placa fixada ao lado da Casa do Artesanato, na Praça Barão, em Franca/SP

Uma figura peculiar de minha cidade, anos 80, que de certa maneira amedrontava alguns e causava curiosidade em outros. Mas é sabido que ele era muito querido em Franca, interior de São Paulo.

Geraldo Pelotão!

O que me lembro era da molecada provocando ele, chamando-o "Ô, Pelotão!", deixando-o muito irritado, pois passavam correndo por ele. Acho que Pelotão ficava tonto com os gritos e arruaças dos pequenos.  Daí pegava pedras que encontrava pela frente, colocava-as no bolso da calça e saía atrás dos meninos, que corriam ao seu redor, zunindo como uma espada sem plano de voo. Os garotos riam, e Pelotão desnorteado ameaçava jogar pedras neles. Não me lembro de alguma pedra ser lançada, pois eu também tinha medo e logo saía de perto.

Uns diziam que o dia que Pelotão não era provocado ele nem dormia direito à noite. Lendas urbanas, que fizeram parte de minha adolescência e que muitos francanos que lerem o texto vão se lembrar com carinho desse cidadão carrancudo, mas de bom coração.


"Quem não se lembra de um homem que frequentou a Praça Barão de Franca durante décadas e, se era chamado pelo apelido, rebatia com reação violenta xingando e jogando pedras? Geraldo Gomes, mais conhecido como Geraldo Pelotão. Faleceu com 85 anos no dia 7 de maio de 2000, mas seu comportamento único fez dele um dos tipos populares mais lembrados pelos francanos. Agora, sua figura ressurge na tela do artista plástico Ismael Donizete Oliveira e ganha o maior prêmio do Salão de Abril de Belas Artes. 
De acordo com os familiares, Geraldo Pelotão teve meningite quando criança e permaneceu com a mesma idade mental da época da doença. Ele morou em Franca com uma irmã e, após o falecimento dela, recebeu os cuidados de uma vizinha."
Link retirado DAQUI

Na pacata Praça Barão daquela época, era sagrado o encontro diário com vários amigos para tomar um café no famoso Café Globo que até hoje reina por aqui. O engraxate na porta que a tudo observava, certamente se emocionaria por saber ter presenciado uma lenda tão carismática como foi Geraldo Pelotão.

Muito poderia se falar dele, mas para os que tiverem paciência e gostarem de um pouco de nostalgia, tem o vídeo abaixo, com mais de uma hora (podemos acelerar com o mouse), para matar saudades e voltar àquela época quando ninguém passava pelo centro da cidade sem ouvir os berros e os xingamentos de Geraldo Pelotão, que tentava correr, mas só dava conta de acelerar os passos tentando atarracar em algum moleque desaforado!

Confessa! Você foi um dos moleques que provocou Geraldo Pelotão, sim, francano?



segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Quem Se Importa?


Bom dia!
Voltando depois de quase um mês...

Um lado bom da internet é o avanço imediato das notícias. E um dos assuntos do momento é a agressão, o abuso, maus tratos, enfim, formas de agredir uma outra pessoa.

Isso inclui o estupro, que é crime.

Muitas pessoas, anônimas ou não, estão, finalmente, admitindo ter sofrido abuso em algum tempo da vida. Não deixo de ficar perplexa por chegar à conclusão que uma atitude dessa se tornar comum e muitas se calarem diante do fato ocorrido.

Não se trata nem me machismo, mas de uma hierarquia que não deveria existir. O não é não sem discutir. O corpo é individual e não cabe ao outro se apoderar como bem entende. Que seja um abraço, um beijo, um aperto aqui, uma passada de mão, o não é não!

O que tenho visto também são muitos que confessam o abuso e mesmo assim são acusados de culpados. Isso é um absurdo! Não importa se homem ou mulher e pior, criança, a vítima nunca é a culpada.

Li em algum lugar, um famoso dizendo que foi estuprado quando era adolescente. Horrível! Não dá pra imaginar tamanhã crueldade, mas ao invés desse famoso ter apoio, sofreu chacotas e deboches. Como se com ele fosse comum tal atitude. O ser humano é esquisito mesmo. Luta pelo feminismo e tal e quando precisa mostrar compaixão pelo próximo simplesmente agride, retrocedendo todos aqueles ideais que tanto gostam. No caso o famoso é homossexual, o que não muda nada, e os comentários foram perversos, horríveis! Diziam que ele havia gostado, que depois desse dia ele passou a ser gay, que agora ele estava querendo aparecer na mídia e toda essa babaquice de quem se esconde atrás do avatar pra despejar merda. Julgam e condenam com a maior naturalidade... Aliás, gente agressiva e mau educada é o que mais tem na internet. Mas na internet podemos filtrar e na vida, nem sempre.

A agressão moral e a ameaça são terríveis! Marcam a ferro e o trauma se instala.

Não podemos mudar essa mentalidade de um dia pra outro. Seria necessário leis severas, mas também sabemos que isso leva tempo.

No momento cabem aos pais educar seus filhos a respeitar o próximo, não só o próximo de sua convivência, mas o próximo independente de quem seja. Aquele ditado "guardem suas cabras que meu bode está solto", deveria ser abolido da mente de todos.

Pais, mães, eduquem seus machinhos a respeitar as moças (idem o contrário) a não tocar no que não lhes pertence, e a saber que o não é não! Eduquem seus filhos a não terem medo de pedir ajuda, deem abertura para um papo sem cobranças, permitam que seus filhos se abram com vocês e, principalmente, ensine a eles que o corpo é sagrado e ninguém tem o direito de tocá-lo sem permissão, que há certas coisas que não se deve fazer, enfim, ter a paciência de educar seus filhos. O que não se aprende em casa, a rua ensina da pior forma possível.

Não levem esse texto como lição de moral, sim? Longe de mim querer passar lição de moral, mas sei que aprendemos no dia a dia e sempre falta algo a acrescentar na vida daqueles que amamos tanto. Filhos estão em formação e os pais são os principais exemplos que eles têm.

Recordando como era há cinquenta anos, graças a Deus evoluímos, e quem sabe daqui cinquenta anos esse assunto já estará resolvido em sua totalidade? Tudo tem um começo...

Uma ótima semana a todos!

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Cafundó Não Existe Mais

Um texto belíssimo da querida amiga Eliana Teixeira.
Cafundó não existe mais, a não ser em minha lembrança.
Cafundó era um lugarzinho na ribanceira de um córrego que passava no fundo do quintal da nossa casa, hoje só escombros escondidos atrás da casa nova.
Em um dos Natais da minha infância, ganhei de presente um livro contando a história da aparição de Nossa Srª de Fátima para os três pastorinhos. 
Fiquei profundamente impressionada com o milagre, com a sorte dos eleitos e, com toda a fé que meu coraçãozinho pôde amealhar, desci a ribanceira musguenta do córrego, ao pé de um bambuzal, e cavei uma gruta, coisa de dois palmos de altura, um de fundura, e esculpi em barro o que parecia ser, para mim, a imagem de N. Srª de Fátima.
E todas as tardes eu ia para esse meu lugar secreto, meu Cafundó, nunca compartilhado com ninguém. Segredo meu e da Virgem. Às vezes ouvia ao longe minha mãe me chamando. Mas éramos tantos filhos que eu sabia que, se eu ficasse caladinha, ela logo se esqueceria de mim.
E o que eu fazia no meu Cafundó? Um único e precioso pedido: Que N. Srª de Fátima aparecesse para mim também.
Muito tempo se passou. Eu mesma tratava de justificar os porquês de sua não aparição: desrespeitei minha mãe, falei palavrão, bati na minha irmã...os pecadilhos de toda criança ao se confessar.
Mas uma noite, ah, que noite, eu sonhei! Sonhei que um lindo botão de rosa vermelho caía vagarosamente do espaço, girando, a coisa mais linda que jamais tinha visto.
Aí, de repente, apareceu o rosto de N. Senhora De Fátima sorrindo prá mim. Era o mesmo rosto da imagem que tínhamos dela em casa. Ela sorriu, não disse nada, e se foi.
Cafundó não existe mais. Parte do quintal tornou-se uma avenida, o córrego foi canalizado e eu não creio que N. Srª vá aparecer para mim novamente. Eu não tenho merecimento. Continuo crendo nela com toda a fé que consigo ter, mas tenho sérias dúvidas sobre a existência de Deus.
Então, se algum dia eu me tornar alguém importante, _ chance remotíssima, com a agravante que eu não faria o menor esforço para sê-lo _ não será possível colocar uma placa de bronze em Cafundó, para contar parte da história de quem fui.
E, se esta narrativa não for lida por ninguém, talvez, no momento da minha morte, eu teatralmente diga :- Cafundó, Rosebud de minha infância... E ninguém compreenderá; Somente a Virgem e eu.

Muitos lerão sim, Eliana, e ficará na memória pra sempre quando ouvirem esse nome: Cafundó.