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segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Maktub

Rede Globo, Vale a Pena Ver de Novo - O Clone.
Muito se fala, na novela, em maktub - estava escrito. É uma outra cultura, os muçulmanos.
Mas o "estava escrito é universal".
Até que ponto acreditamos no destino que Deus nos deu? Será que Ele faria isso conosco?
- Olhe, filho, Eu te dou o livre arbítrio, mas tudo o que você vai viver Eu determino. Você precisa só viver e pronto!
Seria muito fácil viver assim:
- Está como Deus quer...
E como Deus nos quer? Acomodados? Sofredores? Inertes?
Eu acredito que a família em que nascemos, os dons que temos, a personalidade, isso sim é Maktub. O restante é sim livre arbítrio. Você escolhe sua vida.
Pode ser que o destino conspire pra você, em determinado tempo de sua vida, se encontrar com alguém - sabe quando conhecemos alguém e que temos a sensação de já conhecê-la há anos? - mas a escolha é sempre sua.
Muitos falam na "a sorte bate uma única vez à sua porta", e eu acho que é assim mesmo. Existe os 15 minutos cruciais na vida que temos que tomar decisões que mudariam completamente nosso rumo. Se é certeiro, viva! Se não, corremos o risco de lamentar o resto da vida uma decisão errada.
Isso é maktub? Não, isso é livre arbítrio. E como o temos, arcamos com consequências. E o que está feito, está feito.
Mas e as tragédias, as mortes repentinas, as dores, os dissabores?
Coisas simplesmente inexplicáveis do Universo, para o nosso próprio bem.
A única coisa certeira é que nascemos e morremos. Isso é inevitável.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Kara...

Dia desses, fuçando nos blogs, comecei um "bate-papo" no blog com um comentarista como eu, o Dagvan Monteiro, um paraibano cabra da peste arretado.
E aí, conversa vai, conversa vem e Dagvan me convidou a ouví-lo cantar num site de karaokê. o singsnap.com.
Acessei e o dito cujo é todo em inglês - eu entendo bulhufas de inglês.
- Dagvan, como vou te vou te ouvir? Me explique passo-a-passo.
- Entre no link members e digite Dagvan ou Dagshow. E pra comentar ou cantar você precisa se cadastrar. É grátis.
Feito tudo isso, pude ouví-lo cantar várias músicas, e que por sinal, canta muito bem.
Daí começou a tortura...
Começaram a me enviar emails, todos em inglês... Jesus, o que eles querem de mim? Só queria ouvir o Dagvan...
Passei tudo pro tradutor inglês/português:
- Você está com problema ou é timido? Selecione uma música e cante!
Mas eu não canto nada... Mas ninguém vai ver mesmo...
Criei coragem, e num domingo cedinho, com a filha dormindo, lá vou eu!
Fui escolher as músicas... Todas em inglês... E agora? Ah, tem Elvis Presley, Love Me Tender, que é fácil.
Coloquei o fone, começou a música e comecei a cantar...
No meio da música, olho pro lado e quem estava lá? Minha filha rindo.
- O que é isso, mãe? Você me acordou!
Nossa, ela disse que estava péssimo... E eu sei que estava mesmo...
Portanto, encerrei naquele dia a tentativa de pelo menos dublar a música.
Dagvan, vou continuar só ouvindo e comentando... cantar não é minha praia!

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Inocêncio II

Com o passar do ano de 1987, como o nosso curso de Educação Física era noturno, às vezes tínhamos estágio na manhã seguinte. E para evitar viajar de volta e ida de novo, dormíamos lá, na sala de Ginástica Olímpica. Que ficava do lado do laboratório de Anatomia. Onde estava o Inocêncio.
Essa sala de Olímpica era toda forrada com tatami (aqueles colchonetes onde se treina o judô) e uns colchões enormes pra Ginástica Olímpica. Era lá que dormíamos - ou tentávamos.
Mas gente jovem e destemida tem "minhocas" e histórias tenebrosas na cabeça. Dormir de que jeito, com o Inocêncio lá nos olhando? Ah, não vai dar... e não dava mesmo. Era a noite toda conversando, contando histórias, uns iam até a janela de vidro só pra verificar se Inocêncio estava lá quietinho mesmo... A "loira do banheiro" perdia feio pro Inocêncio. Coitado...
E o ano terminou, o Inocêncio ficou e nós fomos pra outras disciplinas.
Mas ao final do curso, uma dedicatória em sua homenagem, afinal foi ele que se emprestou pra termos um pouquinho mais de conhecimento. À ele, nossa gratidão:

"AO CADÁVER
Aluno ou mestre, ao curvares com a lâmina fria do teu bisturi sobre este cadáver desconhecido lembre-se:
Ele nasceu do amor de duas almas, recebeu carinhos e cuidados, cresceu à luz da fé e da esperança. No Deus que o criou e se tornou sem fim. Foi criança, correu, brincou, sorriu alegre e, jovem viveu sonhos felizes. Ilusões, como vives agora talvez humano, amou e sentiu-se amado, e também teve saudades de outros que partiram. Agora, jaz na fria mesa, mais um serviço somado à tantos que prestaram em vida para sobreviver, aí está nas tuas mãos sem nome, sem lágrimas, sem nada. Mas servindo ao teu conhecimento ajudando-te a crescer e ser alguém. Nada te pede em troca, mas uma coisa espera do teu sentimento humano respeito a isso que lhe resta. E, se lembrares... Também uma prece."

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Inocêncio

1987, primeiro ano do Curso de Educação Física.
Tudo novidade, aquele burburinho de turma se conhecendo, quem é bonito, quem é a gostosa...
E todas as disciplinas apresentadas, inclusive Anatomia. Professora Vergínia e seu laboratório. Alguém já entrou em um laboratório de Anatomia? Gente, é o máximo da curiosidade nua e crua. Todos aqueles potinhos com formol e um feto - tinha um do tamanho de um feijão e era perfeitinho), ou um crânio, ou um órgão... tudo verdadeiro e tenebroso. O primeiro dia foi só pra apresentações:
- Alunos, esse aqui é um feto, esse aqui é um pedaço de cérebro, esse aqui é um crânio cortado ao meio, esse aqui é uma mão, esse aqui é um órgão genital...
Fantástico!
E tinha os ossos também, todos do corpo, ali completinhos. Eles são um tanto pesados - foi aí que me conformei que por mais magra que eu ficasse não ficaria com peso leve, porque sou ossuda. E pra quem não sabe, cada sutura ou buraquinho ou marquinha do osso tem um nome.
E depois de matar todas as nossas curiosidades, quem vemos ali deitadinho, completamente inerte? Inocêncio.
É um corpo inteirinho, sem a pele, preservado pelo formol. Até o "bigulim" estava lá. Morto, mas estava lá.
Ninguém teve coragem de chegar perto, precisando de D.Vergínia arrastar um a um pra vê-lo. Perfeito.
Como estávamos todos de luvas cirúrgicas, tocamos os músculos, um a um - quase todos, eu digo, ninguém se atreveu a tocar seus documentos pessoais.
Não tem como ficar fascinado com aquela visão. Eu penso que a medicina deve ser apaixonante, apesar de não ser pro meu bico, porque eu só tenho tamanho, qualquer sanguinho (de machucado) que vejo, desmaio.
Foi uma aula emocionante que ficou em nossas mentes por todo o ano de 1987.
Saudades...

            O FÊMUR

                                  



sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Bob Esponja Calça Quadrada

Uma fase gostosa da vida é a passagem da infância pra adolescência. A criança quer ir mas quer ficar... Difícil largar bonecas, carrinhos, desenhos. Ah, os desenhos!
Me lembro de minha infância, dos desenhos que não perdia um sequer: Speed Racer - era apaixonada, Tutubarão, A Cobrinha Azul, A Pantera Cor-de-Rosa, Mister Magoo, A Corrida Maluca, Perna Longa, e tinha um outro que não me lembro o nome, eram pessoas vestidas de ursos, que tinham uma banda e cantavam... e vários outros que não me lembro o nome.
Meus filhos, já adolescentes, não desgrudaram ainda dos desenhos, que nos dias de hoje tem muito mais tecnologia.
E tem o Bob Esponja...
Gente, como é que um cidadão tem uma idéia dessa? Será que ele imaginou isso na infância, tomando banho - geralmente criança não gosta de tomar banho - e aí pegava a bucha e conversava? Eu acho Bob Esponja genial.
No fundo do mar tem as esponjas, e no desenho tem a esponja de tomar banho Bob Esponja Calça Quadrada! Que mora em algum lugar no fundo do mar chamado Fenda do Biquíni, dentro de um abacaxi. E que trabalha numa lanchonete e tem como chefe o Sirigueijo. E tem Patrick, aquela estrela do mar completamente sem noção. E Bob tem um cachorro-caramujo: o Gary. E no desenho também tem uma castor que usa biquini e um aquário na cabeça, a Sandy, e tem o Lula Molusco, seu vizinho.
Imagine um cidadão imaginando tudo isso no fundo do mar... Quem não assistiu, assista.
Esses desenhos de hoje, tem muita briga, luta, monstro, mocinho, mas Bob Esponja é daquelas inocências difíceis de encontrar hoje. Histórias sem pé nem cabeça, mas divertidíssimas. Quando sento pra assistir, com meus filhos, eu choro de rir e fico imaginando como é que pode? Como uma cabeça humana tem capacidade de inventar algo tão simples e tão criativo, tão cativante, tão delicioso de assistir, não importando a idade.

Bob Esponja Calça Quadrada é produzido pela Nickelodeon Animation Studio’s.
Autor: O animador biólogo marinho Stephen Hillenburg

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Rodrigo Santoro

Rodrigo Santoro Neto, 52 anos, pedreiro, e como ele se define - não tem leitura e nem escrita.
Como  dá pra perceber, também existe o Rodrigo Santoro Filho e o Rodrigo Santoro (in memorian). Sem falar naquela perfeição feita por Deus Rodrigo Santoro da tv.
Seu Santo, como lhe chamavam, tinha a vida pacata, calma. Mas aí apareceu o outro, o da tv e bagunçou tudo.
Seu Santo era um daqueles mal acabados sem vaidade nenhuma. Já não tinha todos os dentes e os pés de galinha no canto dos olhos parecia um galinheiro inteiro. Coitado, a condição não lhe permitia.
Longe de qualquer holofote, não sabia nem o que era fama. Até que um dia lhe caiu uma dor do lado que não teve jeito. Procurar o doutor. E Hospital Público todo mundo conhece. E todo mundo passou a conhecer também o Rodrigo Santoro Neto.
A moça da janelinha ia chamando um a um e lá vai: Sr. Rodrigo Santoro... Neto. Ah, não teve um que não olhou pra moça da janelinha esperando o todo bonitão da tv. E cadê. Até as enfermeiras lá de dentro vieram... os médicos... a faxineira... Ah, todo mundo esqueceu da dor por um instante. Gente, cadê o Rodrigo Santoro?
E seu Santo, calmamente, se aproximou da janelinha - a moça de pé olhando por cima de todos, procurando - sou eu, moça.
Seu Rodrigo Santoro Neto? É o senhor? Sim, mocinha.
Mas não teve um que, num misto de decepção e alívio (sim, porque imagine ele me vendo assim, toda desengonçada) cairam na gargalhada.
Seu Santo não entendeu nada. Ficou ali parado esperando as ordens da moça da janelinha.
E como hoje existem vários fotógrafos espalhados pelo mundo, com seus celulares, muitos foram até ele só pra tirar uma foto de recordação, dar um abraço, lhe perguntar se o nome era esse mesmo...
Seu Santo foi atendido, muito bem atendido (tomou até cafezinho) e foi embora feliz, pois o diagnóstico não passava somente de gases presos.

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Tia Maria

Tia Maria não é minha tia, mas é tia de uma grande amiga minha, a Márcia.
89 anos, viúva, mas "bem de vida", com 2 aposentadorias - a sua e a do falecido.  Guardava o que sobrava em um abertinho da cadeira da cozinha. Ninguém sabia. Mas se precisasse de dinheiro era só pegar. Morava sozinha, pagava aluguel e ninguém a perturbava.
Ninguém a perturbava e ninguém cuidava dela.
Vamos combinar que viver além dos 70 requer cuidados... E tia Maria vivia sozinha, se cuidando. Tinha irmãs, parentes que só iam visitá-la vez ou outra. Só pra ver se estava viva.
Eu tenho a impressão que não deve ser muito bom viver sozinha assim, sem ninguém... Mas fazer o quê? Essa atitude de morar com os parentes tem que partir dos parentes e não dela.
Mas tia Maria era daquelas "bocudas", que fala sempre o que lhe vem a mente... Magoando ou não... Ela sempre solta as dela.
Uma pessoa difícil? Não acho! É uma pessoa vivida, que passou por todos os sofrimentos que a vida oferece e não teve a sorte de parir ninguém que pudesse lhe cuidar na velhice.
Mas tinha Márcia, sua sobrinha e amiga minha.
Márcia era separada, tem um filho casado, e comprou uma chácara pra morar, já que sempre morou no mato, não se adaptava à vida urbana.
Primeiro morou um bom tempo sozinha. Difícil morar sozinha, e no mato então... Mas Márcia se dizia protegida, porque a primeira coisa que construiu na chácara foi uma igrejinha que logo a encheu de santos - quase todos estavam lá.
Depois  o filho com a nora também resolveram morar lá.
Tia Maria sempre era convidada a passar o dia na chácara... E ficava sempre encantada com tudo... Adorava quando a convidavam.
Num belo dia, tia Maria toda feliz com o passeio, olhou pra sobrinha Márcia e soltou:
- Márcia, você me deixa morar aqui também? Eu faço um quarto com banheiro pra mim e ajudo a reformar o galinheiro.
Márcia, espantada, não sabia falar não pra ninguém, disse que sim, que poderia tia Maria morar com eles. Afinal já era bem idosa, e não era idosa rabujenta, era boa pessoa e fácil de lidar.
Chamaram os pedreiros, compraram material e construiram a suíte de tia Maria.
Vez ou outra, quando tia Maria ia dar uma olhada na obra, Márcia a escutava nos cantos dizer:
- Viu, mosquito, eu não te disse que ia arrumar um lugar pra morar? Nós não vamos mais ficar sozinhos, agora temos até uma família, com cachorro, galinha, ganso e mangueira, goiabeira, jabuticabeira e muitos passarinhos.
Márcia ficava só ouvindo e não dizia nada.
A ansiedade era tanta que mesmo antes de terminar a suíte, tia Maria mudou-se pra chácara.
Ah, que alegria! Fez bolo naquele dia, comprou guaraná e riu muito.
Márcia começou a tomar conta de tia Maria com os remédios e percebeu que ela não estava bem de saúde. Sangrava muito às vezes. Então a levaram ao médico.
A única coisa que Márcia pensava era:
- Meu Deus, será a quanto tempo que ela passa mal e não diz pra ninguém?
Fizeram todos os exames e antes do resultado, um dia depois de tia Maria completar 90 anos - com direito a parabéns com bolo e guaraná - a encontraram desmaiada no quarto.
Internação. AVC. À partir desse dia, tia Maria não acordou mais, faleceu 3 dias depois.
E a única impressão que todos nós tínhamos era:
- Ela segurou esse tempo todo só pra não morrer sozinha. Esperou encontrar um lugar, uma família que a acolhesse e partiu em paz.
Vá em paz, tia Maria... Como diz Milton Nascimento: "Qualquer dia a gente vai se encontrar".

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Obra Prima

Coisas eternas, inesquecíveis, uma Obra Prima feita pelas mãos de um gênio...


quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Mistura saudável

Eu confesso: o fogão não tem paciência comigo, as panelas não vão com minha cara, e todas as receitas de bolo combinaram de me ferrar, mas a geladeira é mais minha amiguinha.
Sempre gostei de inventar, desde pequena, receitas exóticas. E isso é de família, pois meu pai comia feijão com açucar, farinha com leite e açucar, mandioca com açucar, etc.
Meu irmão, a mesma coisa.
E eu  peguei o DNA reforçado.
Pra mim é comum essas invenções. Bastava estar sozinha em casa, lá ia eu fazer banana com açucar caramelado, ou bater ovos, até virar não sei o que (acho que queria fazer gemada, mas não dava certo) fritava e comia.
Mas curiosa e inconformada não entendia porque não podia comer manga com leite. Porque não pode!!! Dizia minha mãe.
E num desses dias de solidão, pegava a manga, o leite, mexia tudo e comia. Morrendo de medo de morrer. E não morria. Não podia falar pra mamãe, mas já sabia que não morria.
Hoje, ainda tenho minhas invenções escabrosas aos olhos dos outros:
- Sorvete com batata frita
- Arroz, feijão e goiabada (tudo junto mesmo)
- Pão com manteiga e Nescau (o pozinho salpicado na manteiga)
- Macarrão com feijão (tudo gelado)
- Pão com maionese, depois você coloca um copo de leite com Nescau e molha o pão com maionese e come
- Pão com maionese e feijão gelado
- Bolo com maionese. Você passa a maionese no bolo, depois molha o bolo no café quente
- Bolacha com manteiga, isso é comum mas se você molhar a bolacha com manteiga na coca-cola não é comum
Sem contar que adoro comer doces de manhã, antes do café. Quem foi que inventou que doce é sobremesa e deve ser comida depois das refeições?
Tudo isso eu como sempre que tem.
E o DNA não satisfeito pegou minha filha de jeito. Ela é igualzinho a mim. Come tudo isso e mais um pouco.

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Sozinha sim, porque não?

Desde que me separei, todos me perguntam o por quê de morar sozinha, por que nunca me casei de novo.
- Porque não!
- Mas você não tem medo?
- Medo de quê?
Eu moro sozinha, com meus filhos, meus cachorros, mas não sou solitária. Não me sinto só.
O sozinha que as pessoas perguntam é por uma companhia masculina, um homem, um marido.
Pode ser que sim, que faz falta, mas não é essencial, pelo menos pra mim.
Eu gosto de me sentir livre, é ótimo ter uma camona só pra você, eu que gosto de me enrolar no cobertor como uma larva - com as pernas de fora, é muito bom.
Também tem o banheiro que não preciso dividir com ninguém, minhas calcinhas ficam ali penduradas, não tem toalha molhada na cama, as roupas estão sempre no lugar, etc.
Eu não tenho a responsabilidade de dar contas de meus gastos. Compro o quero e pago como quero.
Eu não tenho que dar satisfações de onde vou, ou com quem converso, o que como, o que bebo.
Se eu quiser comer pão com manteiga todos os dias, tudo bem.
Cuido dos filhos como toda mãe cuida: comida na hora certa, equilibrada, não lhes falta nada. Mas eu, quem se importa?
Posso dormir a noite toda com o rádio ligado e ouvir apenas as músicas e não os roncos do indivíduo.
Posso dormir, ou caminhar pela casa pelada ou quase. Tá certo, com marido também pode... mas geralmente marido não fica olhando a mulher desfilando pela casa pelada e permanece inerte... e não é toda a hora que nós estamos dispostas.
Mas é bom você aprender algumas coisinhas como trocar o gás, trocar lâmpadas, trocar a tomada de algum aparelho que queime, desentupir pia, compre um vidrinho de óleo industrial que serve pra tirar aquele nhec-nhec das portas – qualquer nhec-nhec que você ouvir é só pingar o óleo - , tirar e colocar cortinas. Tenha em casa uma caixa de ferramentas.
Agora, força física nós mulheres não temos pra abrir um vinho, um vidro de palmito... então tenha sempre a política da boa vizinhança e peça pra algum filho de Deus fazer o serviço pra você.
Aprenda a lidar com as baratas, sem medo... Bichos geralmente não gostam de limpeza, então se você manter seu espaço sempre limpo, eles dificilmente aparecerão.
Resumindo, sou feliz assim, porque não coloco minha felicidade nas mãos dos outros. Sou feliz por mim mesma. Se tiver outro marido será para somar e não pra abrir mão nem de minha parte, nem da dele, de prazeres que temos individualmente. E ele terá que ter, é claro, um bom... papo, porque eu não vou ficar o tempo todo na cama com ele.
E que saiba cozinhar.  Homem no fogão é a visão do paraíso...
E que não implique comigo.
E que saiba de todos os meus defeitos, e mesmo assim me ama.
E que tenha bom humor e me faça rir.
E que pague a maioria das contas.
E que vá ao shopping comigo.
E que além de cozinhar também lave a louça.
E que seja cheiroso.
E que não deixe a toalha molhada na cama.
E que guarde as coisas em seus devidos lugares.
E que seja gentil, educado, gentleman durante o dia e um cafajeste na cama.
E que não tenha o hábito de desviar os olhos pra pessoas do sexo feminino, enquanto estiver na minha presença.
E que...
E que...
E que...

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Primeiro dia de aula

Daqui a pouco começam as aulas. E eu não deixo de me lembrar minha infância no primeiro dia de aula - um terror!
Levante a mão quem foi que inventou que no primeiro dia, o aluno tem que se levantar da cadeira, na frente de todo mundo e dizer o nome, de onde veio, etc. Com certeza não vai aparecer o culpado.
Eu que sempre fui tímida, queria mesmo era me esconder dentro da carteira (é esse o nome de onde se senta na sala de aula, nos dias de hoje?). Eu bem que tentava faltar, mas minha mãe não deixava de jeito nenhum.
Meu nome, Clarice, é comum, mas complicado de se entender. Parece que tenho que soletrar todas as vezes, ou então gritar bem alto, bem pausado Cla-ri-ce, senão a pessoa não entende. Hoje adotei o Clara que é mais fácil, principalmente por telefone.
Mas vai lá:
- Agora você mocinha...
- Meu nome é Clarice...
- Como meu bem? Fale mais alto pra todo mundo entender.
Nisso eu já estava fazendo xixi nas calças e vermelha como um pimentão. O que são aqueles olhos todos me olhando?
- Meu nome é Clarice, vim da 3a. série com a Prof.Ermelinda.
Pronto, acabou o sufoco, agora só ano que vem.
Mas quando eu fizer 16 anos, eu não venho no primeiro dia de jeito nenhum. Nem morta!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

A imagem que nos fazem

Tem dia que é difícil. Mulher é difícil.
Nos julgam, nos condenam sem o menor pudor... Nos destroem, nos pisam, nos arrastam pelo chão... nos humilham... nos provocam...
Hoje, o que eu mais queria era alguém que segurasse minhas lágrimas, minhas dores, meus lamentos...
Somente hoje, alguém que me desse os ombros pra encostar, sem cobrar nada, sem perguntar nada, sem pré julgar...
Hoje, especialmente hoje, eu precisaria de alguém que olhasse no fundo de meus olhos e dissesse:
- Pode desmoronar, eu te seguro...
Só hoje.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Premonição II

Depois do acidente que matou Edgar e seu filho, durante 40 dias, Lara morreu em vida. Foram 40 dias de choro, solidão, sofrimento...
E não dormia. 40 dias dormindo o mínimo por noite. Quando se deitava, sentia a presença de alguém, virava e não via ninguém, e com essa aproximação vinha também um odor estranho, diferente, não era perfume, não era doce nem azedo. Diferente.
Muitas vezes ainda deitada sentia como se uma pessoa deitasse ao seu lado... Não sentia medo. Ficava apenas estática imaginando o que seria.
E nesse período de 40 dias, sentia sempre essa presença, não conseguindo identificar. Nos dias em que desmoronava em lágrimas, parecia desfalecer, saiam-lhe todas as forças como se fosse desmaiar... Depois uma paz, o choro passava e dormia.
Passados os 40, agora mais "conformada", poderia tocar a vida sem sofrimento profundo. E começaram os sonhos.
Primeiro a imagem de Edgar, num lugar escuro, tentando dizer algo e não conseguia. Era tão real, como se sua alma despregasse do corpo e flutuasse pela casa, até encontrar Edgar.
Depois, os sonhos eram "lances" dos pouquíssimos tempos que passaram juntos, os beijos apaixonados, e a imagem de Edgar olhando fixo em seus olhos.
Um terceiro sonho ele escrevia uma carta. Era a letra dele, mas não conseguia ler.
Lara entrou em desespero e começou a orar pra que seja lá o aviso que fosse, que os anjos levassem Edgar pra um lugar tranquilo, puro, de paz, como imaginava que seria o céu.
Orava o dia todo, todo dia. Os sonhos pararam por um tempo. E a sensação da presença em sua casa também. Os odores, ídem.
E numa noite, depois de alguns dias sem sonhos, num cochilo Lara vê Edgar... Todo de branco, rodeado de outras tantas pessoas, todas de branco, num lugar iluminado, cheio de pilares iguais àqueles de Roma. No sonho Lara abre uma porta e lá estava ele... Sorriu, acenou e acordou.
À partir deste dia, apesar do sofrimento do acidente, começou a sentir paz. Não chorava tanto, começou a reagir pra vida. O punhal cravado em seu peito aos poucos foi saindo.
E hoje, depois de 6 anos, Lara ainda sente uma presença, os odores, mas são raros.
Ninguém morreu e voltou pra contar como é lá do outro lado, mas é confortante pensar que a vida não é só na Terra, que existe sim o desconhecido. E eles nos veem, e nós os sentimos. Se for como nos filmes, na hora da morte alguém sempre vem buscar, Lara sabe que Edgar vai estar lhe esperando com as mãos estendidas. Como ela sabe?  Ela simplesmente sabe.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Premonição

Lara era uma garota aparentemente normal, se não o fosse o fato de ter "avisos" antes de acontecer coisas... como explicar... ela tinha sonhos nítidos que lhe mostravam o que estava pra acontecer. No começo não entendia bem o que significava, mas com o tempo e ligando os pontinhos percebeu que poderia evitar certos acontecimentos porque foi avisada antes.
Levava a vida normalmente, sem alarde e sem revelar o seu segredo.
Namorava um rapaz, o Rui à muito tempo, 6 anos, mas sem expectativa de casamento. Eram muito novos.
Passou no vestibular e foi estudar em uma cidade próxima - ia e voltava todos os dias. O namorado não gostou muito, era possessivo e ela aceitava - achava que era amor. Isso foi em 1987.
No segundo ano, a mesma turma, começou a entrosar mais com os meninos, e um em especial... o Edgar.
Bastaram apenas alguns papos e o brilho nos olhos, os sinos, as borboletas na barriga deram o ar da graça para os dois. Mas e o Rui? O que eu faço? Não houve traição da parte dela, apenas troca de olhares, conversas...
- Mas se eu estou completamente apaixonada por outro é porque não amo o Rui, então eu tenho que resolver.
E resolveu. Se alguém quisesse ver uma pessoa destruída, era o Rui.
- Mas ele é novo e logo me esquece.
Começou a namorar o Edgar, e foram 2 meses alucinantes, mas, por incrível que pareça, sem sexo.
Rui  e sua família inconformados  fizeram  de tudo pra ter Lara de volta... e conseguiram.
Parece que do nada o encanto acabou, cada um pro seu lado e Lara de volta ao namoro antigo. Marcaram casamento.
Edgar nunca mais conversou com Lara. Nós sabemos que o pior castigo que podemos receber é a indiferença. E isso acabou com Lara. Nunca mais viu Edgar lhe dirigir a palavra.
- Melhor ficar longe mesmo... Eu acho que não sou mulher pra ele...
E chorava, chorava, chorava.
Casou, teve filhos e uma vida péssima de casamento. Não que ela ou ele sejam ruins, os 2 juntos é que não combinavam.
- Mas como não percebi isso antes de me casar?
Uma coisa é casar e outra é conviver dentro da mesma casa. Acabou o casamento. Pagou caro por ter casado e pagou mais caro ainda por ter se separado. Mas agora era feliz, tinha paz.
Aqueles sonhos, às vezes pesadelos voltaram, agora era com acidente de carro batendo em um ônibus. Não passava uma semana sem que não tivesse esse tormento.
- Mas meu Deus, quem é que vai sofrer acidente?
Não conseguia ver. O sonho era apenas esse.
Um dia mexendo em suas coisas, achou a agenda da época da faculdade. E nela estava o telefone de Edgar. Gelou. Tomou coragem e ligou e foi a mãe dele que lhe passou o seu telefone.
- Meu Deus, o Edgar... eu preciso lhe pedir perdão. Eu sei que ele achou que o usei pra forçar o camento com Rui. E não foi nada disso! Será que ele me perdoa?
- Oi, Edgar, sou eu, Lara...
O papo durou 5 minutos, mas não queria pedir perdão por telefone. E naquela noite, certa de que teria uma bela noite, lá vem o sonho. Ela caminhava por um muro comprido que do outro lado era o cemitério. E na porta estava o Edgar. Lhe acenou e entrou. Acordou.
De manhã, ainda com o sonho na cabeça, ouvindo o noticiário regional: " Grave acidente com um carro e um ônibus matam  Edgar do Couto Ribeiro, de 45 anos e seu filho de 7, PLR."
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Hoje,  03 de Fevereiro faz exatamente 6 anos que isso aconteceu.
Ninguém saberia dizer que Edgar seria sua alma gêmea, que se casariam, que viveriam felizes. Mas à partir desse dia Lara nunca mais foi a mesma. E o que ela se esforça pra acreditar é que Edgar está lá, em sua casa, com seu filho, vivendo sua vida e que tudo aquilo não passou de um simples pesadelo.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Consulta Médica

Se tem uma coisa que não tenho paciência é com médico. Ficar doente, tomar remédio é um saco, um porre.
Primeiro você marca a consulta com hora marcada. Mas a hora exata marcada é pra todos. Todos às 14 horas.
Mas tem as revistas, todas velhas, cheias de orelhas, rabiscadas e páginas arrancadas - principalmente aquela que você queria ler.
E tem a recepcionista. Geralmente mocinha que não tem o menor pudor de lhe fazer perguntas em alto e bom tom pra todos ouvirem:
- Idade? Peso? Estatura? A senhora está sentindo o quê?
E se for hemorróida, vai falar o quê?
- Estou com dor no fiofó?
Bem, chegou a sua hora e tem o doutor lá sentado com aquela cara de médico, anotando sempre alguma coisa - você nem entrou e ele já está anotando, deve ser a primeira impressão dele.
- Cidadão bem apessoado, um pouco obeso, com aparência amarelada...
Você senta à sua frente - e ele com aquela cara de médico - e começa a reclamar o seu problema:
- Eu estou sentindo fortes dores no abdomem - não, assim é muito chique, ninguém fala assim.
- Eu tô com uma dorzinha aqui do lado que dói quando eu respiro.
- Deite-se lá.
Aí você custa a se deitar, porque espicha a barriga e dói, e lá vem ele.
Te apalpa de todo jeito.
- Dói aqui?
- Ai, dói...
- Dói aqui?
- Ai, doutor, eu não estou aguentando...
E o doutor, não satisfeito, enfia quase a mão inteira dele na sua barriga pelo umbigo.
- E aqui?
- Doutor, o senhor vai me matar, dói muito, ai, ai, ai...
Pode se sentar na cadeira.
Agora eu penso... será que durante o curso de medicina existe uma disciplina assim: “Como desmascarar o paciente – porque às vezes ele mente sobre as dores” . E o professor ainda explica:
- Meus alunos, vocês tem apertar bem o local onde o paciente diz que dói, porque talvez ele pensa que dói e não é o local que ele pensa que é. Então, se for no abdomem, apalpem todo o abdomem, se for coluna, faça ele fazer todo o tipo de movimento, se for  suspeita de fratura, mexa o local de um lado pro outro até estralar – se não estralar não é fratura.