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sexta-feira, 30 de maio de 2014

Machado de Assis


Quando Ela Fala

Quando ela fala, parece
Que a voz da brisa se cala;
Talvez um anjo emudece
Quando ela fala.

Meu coração dolorido
As suas mágoas exala,
E volta ao gozo perdido
Quando ela fala.

Pudeste eu eternamente,
Ao lado dela, escutá-la,
Ouvir sua alma inocente
Quando ela fala.

Minha alma, já semimorta,
Conseguira ao céu alçá-la
Porque o céu abre uma porta
Quando ela fala.

Machado de Assis, em "Falenas"


Machado de Assis é referência, principalmente para quem é um pouco mais vivido, daquela época em que o ensino público era motivo orgulho. Li vários livros, e por ano éramos obrigados a ler um por bimestre. E havia seminário, prova e debate. Tudo isso quando ainda estávamos em formação. Lastimável o que fizeram com o ensino. Pena os jovens não conhecerem as obras de tantos gênios da Literatura.

E fico indignada e vou ficar até meus últimos dias com a mais nova invenção dessa década de destruição do bom-senso e da educação como um todo. Uma senhora que inventou, e o pior: gostaram e aprovaram a ideia, de "modificar" a obra de Machado de Assis e de mais alguns, somente para facilitar a vidinha difícil dos estudantes atuais. Indignada!

Para quem não sabe do que se trata, leiam este link AQUI!

quarta-feira, 28 de maio de 2014

Uma Deliciosa Surpresa


      Entre uma faxina e uma espiada na TV que estava ligada praticamente no último volume, Emanuelle não tinha pressa de se ver livre da bagunça acumulada durante a semana. Tinha o tempo necessário para terminar tudo o que havia começado. O dia estava lindo, fresco, céu azul claro sem nuvens e uma brisa balançava seus cabelos cacheados quando ela colocava o rosto na janela, fechava os olhos e inspirava um ar perfumado pela dama-da-noite florida, plantada propositalmente no jardim frente a sua casa.

      Algumas cartas estavam jogadas ao chão. Nem percebeu que o carteiro havia passado. Gostava de cumprimentá-lo e vê-lo, pacientemente, montado numa bicicleta e jogando as cartas nas casas. Um bom exercício físico, pensava. Pegou-as e colocou-as sobre a mesa na sala de jantar. Sentou-se e olhou uma a uma. Parou na última, espantada. Meu Deus, quem diria? Falava em voz alta e com o coração acelerado quase que saindo pela boca.

      Cheirou-a, mas nenhum sinal de um perfume quase esquecido pelo tempo... Carinhosamente acariciou as letras, virou-a e fez o mesmo do outro lado, como se quisesse sentir os dedos de quem escrevera... Colocou-a contra a luz para adivinhar quantas folhas haviam escritas ou que cor de tinta desenhava as palavras, ou se seriam apenas tinta de impressora... Ou mesmo tentava adivinhar qual seria a primeira frase... Deitou-a na mesa e sorriu. Permaneceu alguns minutos admirando aquele envelope branco com alguns selos carimbados, com letra espichada para o lado direito, quase deitada na linha, com seu nome escrito, seu endereço, tudo certo, para não correr perigo de voltar ao remetente.

      Pegou-a novamente e apertou-a ao peito. Fechou os olhos, levantou-se e começou a balançar o corpo, para um lado e para o outro, dançando uma música suave... Rodopiava vez ou outra e jogava a cabeça para trás, como ele fazia quando pegava-a pela cintura e rodopiava fortemente, deixando-a tonta, só para vê-la rir descontroladamente e se jogar em seus braços, com medo de se espatifar no chão.

      Parou! Arregalou os olhos e olhando para o nada ficou pensando e se não fosse nada do que estaria imaginando... E agora? Talvez seria melhor nem abri-la e ficar decepcionada. Guardaria as lembranças num cantinho eterno e especial de seu coração. Olhou-a, beijou-a e colocou-a novamente sobre a mesa. Continuou a faxina, como um robô obediente. Olhava sobre a mesa e a carta lhe implorava ser aberta. Ignorava-a. Ia para o quarto dobrar as roupas que estavam espalhadas pela cama. Olhava pela porta avistando a mesa e a carta ainda estava lá, imóvel, como se olhasse de rabo-de-olho esperando a hora de ser rasgada mostrando toda sua intimidade em algumas palavras. Seriam letras cursivas ou impressas? Se forem cursivas valeriam muito mais pelo simples fato de mostrar uma característica tão pessoal, mas se forem impressas também seriam bem-vindas.

      Emanuelle correu até a mesa, parou, olhou a carta mais uma vez, pegou-a e rasgou a beirada com cuidado temendo destruir parte de alguma palavra que ficaria perdida para sempre. Era cursiva! Sorriu. Trêmula, ansiosa, coração acelerado, boca seca... Calmamente abriu-a e começou a ler:

      Emanuelle, meu amor...

      Fim.


     

segunda-feira, 26 de maio de 2014

O Primeiro e Último Amor

   
      Seis meses se passaram depois da morte de dona Isolina, esposa de seu Arnaldo. Casamento de cinquenta anos e três meses, até que ela morreu "de repente", como costumam dizer quem simplesmente morre sem antes apresentar nenhum sintoma de nada. Foram felizes na medida do possível, com seus altos e baixos, com muitas cobranças por parte da família que seu Arnaldo achou, num determinado período, que tudo se acabaria. Mas os anos foram passando e tudo foi se ajeitando como tinha que ser. Os seis filhos nasceram, cresceram e formaram família. Agora seu Arnaldo estava sozinho, mas não se sentia solitário e nem infeliz. Ainda tinha muito o que viver, apesar de seus setenta e dois anos, com uma saúde de dar inveja a qualquer jovem e ainda uma última atitude que ele pretendia ir atrás. Agora era a hora.

      Na sua juventude, seu Arnaldo foi um galanteador, um conquistador, que deixou muitas moçoilas apaixonadas e perdidas por ele. Mas uma única moça resistiu aos seus encantos: Beatriz! Linda morena, sensual, cativante e com um sorriso arrebatador. Ela não dava muita conversa para Arnaldo na época, pois já tinha compromisso sério com um outro rapaz que fora arranjado pela família, como era o costume daquela época. Seu Arnaldo sempre procurava saber por onde andava Beatriz e quando a encontrava casualmente pelas ruas ficava só de longe a admirar aquela que surrupiou seu coração. Continuava bela como era na juventude, muito discreta e também viúva há alguns anos.

      Seu Arnaldo não pensou duas vezes: agora iria atrás daquela ingrata que nem ao menos lhe ofereceu os lábios carnudos para que sentisse o gosto de uma paixão platônica por esses longos cinquenta e poucos anos. Agora estava livre para buscar aquele corpo que aos seus olhos continuava perfeito; não um corpo sedutor ou jovial, mas um corpo feminino que sempre desejou. Poderia ele agora traçar planos, combinar passeios, e quem sabe, se casar de novo. Por que não?

      Só de imaginar esse encontro ficava todo eufórico, o coração disparava, as borboletas lhe enchiam o estômago com aquele friozinho típico de apaixonados e deixava-o mais jovial ainda. Um belo dia, decidido, tomou um bom banho, se perfumou, colocou a melhor roupa e foi à procura da amada que durante esses anos todos aguardava num cantinho todo especial nesse coração idoso, porém ainda capaz de amar e ser amado. Estava se sentindo jovem, bonito, mas não queria ser aquele sedutor de outrora; agora era um simples cavalheiro que estava em busca de sua rainha adorada para lhe oferecer o braço quando saíssem para um passeio, e um lar quando finalmente o casamento se concretizasse.

      Sabia onde dona Beatriz morava e com um belo buquê de rosas cor de rosa bateu a sua porta. Ela atendeu e se assustou. É claro que se lembrava dele, apesar de nunca o cumprimentar nas ruas quando se cruzavam por acaso ou por uma premonição do destino que já traçava um final de vida juntos. Convidou-o a entrar e preparou-lhe um café. Serviu uma mesa simples, mas muito bem arrumada, com um bolo de laranja que exalava um perfume delicioso por toda a casa. Conversaram a tarde toda até que seu filho chegou, cumprimentou seu Arnaldo, conversou um pouco e logo saiu novamente. Ficaram os dois sozinhos e seu Arnaldo finalmente teve a coragem de se declarar. A voz embargada não impediu que ele pegasse suas mãos, que agora estavam suando frio e trêmulas, o coração disparado, as pernas bambas e a respiração ofegante...

      Os olhos de Beatriz brilharam quando ouviu todas as declarações, e sem pensar muito confessou que aquele sentimento era recíproco, apenas não deu confiança por ele ser muito galanteador com todas e não queria ser apenas mais uma em sua vida. Pronto! Se abraçaram, se beijaram e começaram um romance.

      Mas seu Arnaldo não queria ficar no romance; queria se casar logo e viver o pouco que lhe restava ao lado de seu grande amor. Dona Beatriz aceitou e marcaram a data. Se casaram, viajaram para uma cidade próxima, pois não queriam perder tempo com lugares longes. Tinham mais o que fazer do que conhecer lugares; isso ficaria para uma outra ocasião. Queriam ficar a sós, em sua casa, que fora toda reformada, alguns móveis trocados e muito bem arejada.

      Seu Arnaldo e dona Beatriz nunca foram tão felizes como estavam sendo agora, e isso deixava bem visível para todos que os conheciam. Irradiavam juventude e demonstravam isso para todos que os viam. Que seja por um ano, ou por um mês, não importa! Tinham pressa de viver esse amor que fora guardado esses anos todos.

      Um dia, seu Arnaldo se levantou antes de sua amada para fazer-lhe uma surpresa, afinal já se passara um mês daquela união mais que esperada. Pegou uma bandeja e arrumou um lindo café da manhã, com um solitário com uma rosa cor de rosa como ela gostava e foi acordar sua rainha. Chegou ao quarto, colocou a bandeja numa mesinha que ficava num canto do quarto e foi encher de mimos a doce Beatriz. Estranhou ela não se mexer, nem acordar, pois sabia que tinha o sono leve. "Deve estar cansada demais" - pensou ele. Passou a mão pelo seu rosto e sentiu uma pele gelada. Começou a sacudir e nada! Pegou sua mão também gelada, já estava com as unhas escuras, começou a massagear os punhos, e nada! Começou a chorar desesperadamente. Beatriz estava morta!

      Morrera tranquila em sua cama, com um leve sorriso nos lábios e uma feição de total felicidade. "De repente", mais uma vez essa morte sem anúncio rondou a vida de seu Arnaldo. Se foi seu amor,  deixando-lhe apenas a saudade e o contentamento de ter vivido por um mês, a mais perfeita harmonia, o mais profundo amor, o mais ingênuo carinho, a ternura verdadeira. Um mês que valeu por toda uma vida...

      "Vai, meu amor, e me espere que logo lhe encontrarei, seja onde for... e lhe procurarei por toda a eternidade, mas lhe acharei, e lhe pegarei de novo e não soltarei nunca mais".

      Foram essas as palavras de seu Arnaldo, quando o caixão de sua amada desceu ao túmulo.

      Fim.

     Texto publicado em 20/06/2012


sexta-feira, 23 de maio de 2014

Eu Sei Quem Você É



      Artur, depois de um dia agitado com cuidados com Maria da Graça, deitou-se e logo a mulher abraçou-o. Sabia que esse era um gesto involuntário, talvez um costume de mais de cinquenta anos de uma união de amor, respeito e cuidados um com o outro.

      Um dia, conversando com a mulher, notou que ela estava estranha, que esquecia as coisas e que não conseguia achar o caminho da cozinha para o quarto, deixando-a agoniada. Levou-a ao médico e o diagnóstico foi preciso: Mal de Alzheimer. Naquele dia não tinha ideia do que seria e do que viria pela frente, mas prometeu, em pensamento, mais uma vez, cuidar da mulher até seus últimos dias.

      Com o passar do tempo, mesmo medicada, Maria da Graça foi piorando, se esquecendo, se lembrando de outras coisas do passado e chegou o dia em que não se lembrou de Artur. Ficava se escondendo dele atrás das portas ou então dentro do banheiro. Sorte que ele, por precaução, tirou todas as chaves das portas deixando apenas a porta da frente que dava para a rua trancada e com a chave em seu bolso. Sempre.

      Seus quatro filhos, todos homens, ajudavam no que fosse preciso, mas tinham suas vidas e seus problemas. Artur já estava aposentado e tinha todo o tempo para cuidar e vigiar Maria da Graça.

      Mesmo ela não se lembrando de nada, tratava-a com todo o amor de sempre, com toda a paciência e carinho. E quando ela ficava sentada olhando para o nada, ele se sentava ao seu lado e contava histórias de um passado que ela agora desconhecia, mas que ele fazia questão de se lembrar sempre.

      Como no dia em que chegou em casa e seu filho mais velho já havia nascido com a ajuda de uma parteira, amiga de uma vizinha. Se assustou quando entrou no quarto e viu a mulher com o bebê nos braços a lhe sorrir. "Olha, bem, é homem!", dizia, com um sorriso lindo e olhos brilhantes por poder presentear o marido com um menino-homem. Rafael. Um bebê rechonchudo e chorão, faminto e inquieto. Artur se acabou em lágrimas ao ver a bravura da mulher que escondeu as dores durante o dia inteiro só para não perturbá-lo no trabalho. Ela que preparou tudo, desde as roupinhas que colocaria no filho até a bacia com água, a tesoura e os lençóis branquíssimos para poder acolher o recém-chegado à vida.

      Enquanto contava essa lembrança, Maria da Graça ficava olhando o céu, os pássaros e apontava para eles, sorrindo. Depois olhava para Artur e dizia para que ele saísse de perto dela, que não o conhecia e queria que chamasse sua mãe Albertina. Artur pegava sua mão enrugada, acariciava e dizia que Albertina já estava vindo e que enquanto isso ele faria companhia para ela. Maria da Graça continuava a olhar os pássaros e a falar coisas desconexas, confusas e a rir sozinha.

      Os filhos até sugeriram que Artur internasse Maria da Graça em uma clínica especializada, com enfermeiras em tempo integral e médicos todos os dias. Artur não aceitou, pois ele era o marido e seria ele quem cuidaria da mulher. Ela não o conhecia mais, mas ele sabia quem era aquela mulher. E assim foi feito.

      Nesse dia em que se deitou e Maria da Graça o abraçou, dormindo, ele ficou olhando para aquela pessoa tão indefesa e se lembrou de todos os cuidados que ela sempre teve com ele. Nunca lhe faltara nada, nunca discutiu nem contrariou-o. Não porque o obedecia, mas porque se entendiam até com os olhares, com os pensamentos. O que um queria, o outro concordava prontamente, sem discussão.

      E assim seria até que chegasse a hora da partida. Até que Maria da Graça fosse conhecer uma outra vida, ao lado da mãe que tanto chamava, dona Albertina. E esse dia, com certeza, levaria o coração de Artur que ainda ficaria por aqui esperando sua vez de dar adeus e ir ao encontro da amada numa outra vida, quem sabe...

      Fim.

      Texto publicado em 20 de maio de 2013

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pássaros Feridos


Trecho do livro Pássaros Feridos, Colleen McCullough.

      Pouco antes de seu décimo quinto aniversário, quando o calor do verão principiava a aumentar, rumo ao seu máximo estupeficante, Meggie notou manchas pardas, irregulares nas calças. Um ou dois dias depois as manchas desapareceram, mas seis semanas  mais tarde, voltaram, e a vergonha mudou-se em terror. Na primeira vez julgara-a sinais de um traseiro sujo, e daí a sua mortificação, mas, na segunda, viu que se tratava inegavelmente de sangue. Não tinha a menor ideia da sua procedência, mas presumiu que viesse do traseiro mesmo. A lenta hemorragia desapareceu três dias depois e não voltou por mais de dois meses; a lavagem furtiva das calças passara despercebida, pois era ela mesma que lavava quase toda a roupa. O ataque seguinte lhe trouxe dor, as primeiras cólicas não hepáticas de sua vida. E a sangria foi pior, muito pior. Ela furtou algumas fraldas dos gêmeos, que tinham sido postas fora de uso, e tentou amarrá-las por baixo das calças, horrorizada pela perspectiva de que o sangue pudesse transpassá-las.

      A morte que levara Hal havia sido como uma visita tempestuosa de algo fantasmagórico; mas essa cessação do próprio ser era aterradora. Como poderia ela procurar Fee ou Paddy para dar-lhes notícias que estava morrendo de alguma doença indecorosa e proibida do traseiro? Somente a Frank teria ela podido contar suas dificuldades, mas Frank estava tão longe que não sabia onde encontrá-lo. Ela ouvira as mulheres falar, à mesa do chá, em tumores e cânceres, mortes lentas e horripilantes, que suas amigas, suas mães ou suas irmãs haviam sofrido, e aquilo lhe parecia, sem dúvida, uma espécie qualquer de tumor que lhe corria as entranhas, roendo-as em silêncio na direção do coração assustado. E ela não queria morrer!

      Suas ideias sobre a morte eram vagas, como era vaga a ideia que fazia do seu futuro "status" naquele incompreensível outro mundo. Para Meggie, a religião era muito mais um conjunto de leis que uma experiência espiritual, e não poderia ajudá-la de maneira alguma. Palavras e frases acotovelavam-se, aos pedaços, em sua consciência tomada de pânico, proferidas pelos pais, pelas amigas, pelas freiras, pelos padres nos sermões, pelos homens maus nos livros quando ameaçavam vingar-se. Não havia maneira com que pudesse chegar a um acordo com a morte, procurando imaginar se a morte era uma noite perpétua, um abismo de chamas que ela teria de transpor num salto para chegar aos campos dourados do lado oposto, ou uma esfera, como o interior de um balão gigantesco, cheio de coros que se alteavam e luzes atenuadas por janelas sem fim de vidros pintados.

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      Um livro delicioso, instigante, emocionante e que vale a leitura. A saga de uma menina por seu amor a um padre, proporcionando momentos de alegrias e de muita dor, tristezas, perdas... A vida como ela é.
      Um vídeo de um seriado gravado e exibido no SBT há anos.




segunda-feira, 19 de maio de 2014

Provação


      Sábado à tarde, já sabiam que não tinha compromisso então não teve como negar o convite. Pietra tomou um banho rápido, vestiu a primeira roupa que encontrou e se foi. Estava ansiosa, afinal muitos anos se passaram até esse reencontro. Estava com medo também, não de encarar certas amigas, mas de seu temperamento nada agradável quando algo lhe deixava constrangida. Medo de sua reação, pois sabia que o assunto voltaria à discussão, com certeza. Mas, arrebitou o nariz e se foi. Um passado que voltara sem permissão para ser presente, sem se anunciar, topetudo e imponente.

      A recepção foi boa, havia mais gente do que imaginaria e isso tranquilizou-a. A pessoa ao qual temia apareceu bem depois, quase no final da reunião de amigas. Estava do mesmo jeito, só um pouco mais metida do que de costume. E sentou-se bem à sua frente. Se olharam e sorriram. Elogiaram uma a outra, falaram de trabalho, de filhos, e Andreza, a amiga desmascarada sem saber que fora, começou o rotineiro assunto fútil de falar de outras pessoas. A cada assunto pautado ela nomeava uma cidadã para criticar ou comentar de alguma forma. Pietra se calava nessa hora. Não tinha o que falar, pois estava distante dos assuntos atuais da turma. Algumas lembranças de críticas com algumas delas lhe veio à mente mostrando-lhe o tanto que era arrogante na época. Apesar das lembranças nem tão boas ria muito com as besteiras ditas por outras. Estava sendo uma agradável tarde.

      Relacionamentos. Era esse o tema da qual todas gostavam. Cada uma falou um pouco, contou sobre a vida de solteira, de casada, de separada e Andreza reclamou, reclamou, reclamou... Como se a vida fosse ingrata por ela estar casada há tanto tempo com um único homem. Demonstrou claramente a insatisfação e o tédio de uma união onde o amor era peça guardada na estante, empoeirada e esquecida.

      Pietra sabia que ela tinha uma vida confortável, quase de luxo, e não entendia o porquê da reclamação. Tão simples se separar e recomeçar! Mas entendeu que a vida que Andreza levava nada mais era do que fora plantado e a hora era da colheita. Assim como a sua e a de todas. Pietra observava cada detalhe, cada gesto, cada palavra da amiga e tirava suas conclusões. É claro que ela não sabia que já fora desmascarada há tempos, mesmo não tendo ido a público e espalhado como papeis picados e lançados ao vento. Que importância teria revelar algo tão comum hoje em dia?

      O assunto que Pietra temia fora posto para discussão. Seu relacionamento conjugal. Estava separada há um bom tempo e sempre lhe perguntavam sobre uma possível volta. Já havia se acostumado e a resposta sempre era a mesma: nunca! Curta e grossa para ninguém perguntar mais nada e mudar de assunto. Mas Andreza gostava de cutucar, de debochar, sonsa como sempre não perderia a oportunidade de constranger Pietra. Perguntou-lhe se não voltaria mais, nunca mais, depois perguntou-lhe o motivo de tanta raiva, já que perdoar é um dom divino. Pietra sorriu, calmamente olhou para a miga e disse que já havia perdoado o ex e todas as amigas que tiveram um caso com ele, mesmo ele estando casado com ela. E continuou encarando a amiga. Viu-a mudar de cor, de disfarçar com outro assunto, rir nervosamente sem controle e ainda chamá-la de exagerada. Como assim, ele fez isso? Perguntou debochando. Sim, fez! Respondeu calmamente ainda encarando Andreza. Pietra se sentiu cínica, sonsa como a amiga traidora. Mas gostou da situação.

      Logo mudaram de assunto e Pietra se sentiu satisfeita com sua reação. Sim, já havia perdoado. Mas perdoar e se afastar é muito fácil. Difícil seria perdoar e continuar convivendo. Essa seria a provação que teria que passar.

      Pensou em Deus e em seus caminhos que fazem as pessoas percorrer. Riu sozinha da cilada em que se metera, mas entendeu que foi necessário encarar as pessoas e se provar que realmente havia perdoado. Nenhuma raiva, nenhum constrangimento, nenhum sentimento de vingança ou ódio. O perdão se fez.

      E continuou pensando que as pessoas têm seu caráter. Ou é bom ou é ruim. Não existe meio termo. E concluiu que não há necessidade de vingança em nenhum momento da vida. As pessoas são como são e cavam sua própria cova, sua própria infelicidade. Bastou olhar para Andreza para ter esta certeza. Uma rica menina pobre. Pobre de cultura, de assunto, de caráter, de gratidão... Teve tudo o que sempre quis menos o principal que era a harmonia, a felicidade, o amor... Viveria até o fim da vida reclamando, ainda querendo o que pertencia ao outro, ainda almejando o que nunca fora capaz de conquistar: o amor.

      Não seriam amigas, pelo menos da parte de Pietra. Poderiam se encontrar de vez em quando, mas a empatia se rompera, os valores eram diferentes e nada mais tinham que conversar. Pietra estava feliz em ter sua vida como queria, apesar dos pesares, mas a sensação de liberdade de fazer escolhas, de aceitar ou negar uma situação deixava-a confortável perante a vida. Se respeitava, além de tudo. Sabia que ao virar as costas Andreza falaria sobre ela, criticando-a ou colocando algum defeito. Não se importava com isso, pois sabia que só havia futilidades e asneiras para oferecer aos outros. Se sentia livre para não aceitar nenhum comentário sem valor nenhum e que não lhe causaria nenhuma mudança. Apenas alguém falando futilidades e mais nada. Sentiu pena.

      A vida dando voltas e esfregando na cara de que nada é em vão. E o melhor ainda é cultivar o que lhe agrada, ir atrás do que acredita, ouvir sua intuição e seu coração. E crer em Deus, na Sua benevolência e cuidados com quem Lhe entrega e aceita a vida.

      Uma provação para poucos, uma percepção somente para quem tem sensibilidade suficiente de que não temos nada nessa vida, além dos sentimentos que adquirimos e cultivamos. O amor, esse sim sempre vale a pena.

      Fim.




sexta-feira, 16 de maio de 2014

Beija Eu


Lendo um blog muito bom, um texto sobre beijo, resolvi roubartilhar a ideia e escrever sobre também. Nunca é demais falar de beijo, de amor, de coisa boa, relacionamentos, enfim, falar do que gostamos.

Quem quiser ler o excelente texto da Luma, do blog Luz de Luma, yes party! cliquem AQUI.

Como ela diz no texto um bom beijo marca muito nossa vida e às vezes acabamos por permanecer com a pessoa por muito tempo. Às vezes porque não permaneci nem uma semana com o dono do beijo mais marcante de minha vida.

Agora, o primeiro beijo a gente nunca esquece mesmo. O meu foi inesperado e maravilhoso! Jamais imaginaria que aquele homem que era disputado por muitas seria o primeiro a me fazer viajar nuns lábios macios, quentes, molhados... Quase perdi o rumo de casa, mas sobrevivi.

O primeiro beijo de alguém que acabamos de conhecer nos causa um frisson. Não sei como está hoje em dia (sei sim, mas melhor nem comentar) quando tudo é muito rápido, mas sou e preservo aquele tempo em que havia os olhares, a conquista, o aperto de mão, um bom papo e só depois o gosto um do outro.

O encaixe perfeito, as mordidinhas, o cheiro, o gosto, o hálito quente, tão intenso quanto o sexo propriamente dito. O beijo é como um sexo consentido em público.

A magia de olhares se cruzando, a expectativa de uma próxima olhada mais longa, depois um sorriso, um sinal, a aproximação, uma conversa revezando os olhares ora nos olhos ora na boca... Uma carícia, um toque... Uma pegada na nuca e um puxão para encaixar uma boca na outra... Um beijo... E o encanto se fez!

Não existe beijo ruim, existe beijo cujas bocas não se encaixam. Sempre há quem goste de um beijo ou outro. Sempre há uma boca a procura de outra. Sempre se encontra no outro uma forma de gostar do beijo.

Antes eu dizia que se o beijo for bom todo o resto também será bom. Mudei de ideia. Nem sempre é assim. Não por experiência própria mas porque as pessoas são muito mais que um beijo. E um primeiro beijo, apesar de ficar marcado como a primeira impressão, não quer dizer muita coisa. Pelo menos para mim não. Um conjunto de situações é que se completam e não apenas um beijo.

Bem, então é isso. Beijem muito e muito! De preferência longamente uma única boca. Ou uma boca de cada vez, e que essa vez não seja só por um instante, que seja um longo instante também.


Um vídeo que muitos já devem ter visto e muitos já criticaram, mas achei interessante. Não sei se é verdadeiro ou não, se foi armado ou não, enfim. Pessoas que acabaram de se conhecer se beijaram. Acho estranho, mas...


Um ótimo fim de semana pra todos! S2 S2 S2


quarta-feira, 14 de maio de 2014

Recaída


      De tanta bagunça, tantos papéis espalhados, gavetas empanturradas de quinquilharias e até uns chaveiros sem a argola para prender na chave Anabelle virou as tralhas no chão. Uma lixeira que estava por perto logo estaria cheia. Nada do que estava guardado serviria para alguma coisa. Menos um pen drive perdido há algum tempo. Anabelle nem tinha mais esperanças de encontrá-lo e ele tão perto, gritando para ser descoberto.

      Correu para o computador para vasculhar o que havia guardado, o que dera por perdido e o que mais encontraria naquele pequeno objeto grandioso.

      Alguns arquivos de músicas, todas românticas, fotos de viagens, ensaios de contos, e fotos. Muitas fotos. "Imagina alguém vendo isso daqui, meu Deus, que horror!", pensava enquanto passava foto por foto. Até parar em uma que lhe balançou. Um grande amor de tempos atrás. Nem era tanto tempo assim, mas parecia uma eternidade desde seu fim.

      Não se lembrava mais do rosto dele... Tão lindo... Apoiada com o cotovelo na mesa e a mão sob o queixo, ficou uns instantes olhando, cada detalhe, cada traço... Com o mouse passou a flechinha por todo seu rosto, pelos cabelos cacheados, pelo queixo quadrado, pelos olhos que sempre sorriam, pelos lábios... Entreabriu a boca e sentiu seu beijo, tão intenso, quente, molhado...

      Suspirou e passou a mão em sua figura... Acariciando com os dedos seu rosto, sua boca... Fechou os olhos e voltou aos bons tempos de ternura, de cuidados, de gargalhadas sem motivos, de olhares perdidos um no outro, de abraços... de amor...

      Voltou aos papéis com a esperança de encontrar seu telefone ou algo que pudesse entrar em contato. Havia bloqueado o moço nas redes sociais quebrando qualquer possibilidade de contato. Parou por uns instantes e achou melhor não procurar nada. Tinha a foto, a única sobrevivente além de seu carinho e ternura por um homem que a modificou para melhor numa fase conturbada em sua vida. Mas acabou, melhor assim, melhor ficar como estava. Não queria estragar essas boas lembranças deste momento mesmo tendo cultivado uma raiva temporária e muitos choros por dias seguidos.

      Apesar da dor extrema com o fim de um promissor relacionamento eram essas as lembranças que levaria consigo para sempre, de bons tempos, de amor eterno enquanto durasse, de surpresas inesperadas, de longos telefonemas... Boas lembranças.

      Chorou de saudades... Não imaginava que ele ainda habitava seu corpo, seu coração, seu ser... Esquecera tão rápido e bastou uma foto numa tela fria para voltar todo o sentimento enterrado.

      Nunca mais seu cheiro, sua voz, seus abraços, seu calor... Só saudades...

      Sem fim para nunca mais!

      Fim.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Andarilha


      Ainda de olhos fechados Rosilei ouvia, ao longe, burburinhos de gente conversando. Mal conseguia respirar com um incômodo que lhe tapava o nariz. Sentia mãos pelo seu pescoço e algo gelado em seu peito. Com muita dificuldade conseguiu abrir os olhos. Não reconheceu o lugar. Um homem apareceu na sua frente e sem dizer nada abriu seus olhos, um de cada vez, apontando-lhe uma pequena lanterna. Tudo muito rapido. Seu corpo chacoalhava, mesmo tendo a noção de que estava amarrada a uma cama. Depois de alguns minutos e pelo barulho ensurdecedor percebeu se tratar de uma ambulância. Não havia morrido, para sua agonia.

      Uma lágrima lhe escorreu pela bochecha; Rosilei fechou os olhos. O mesmo homem que a apalpava e ficava o tempo todo verificando sinais vitais colocou-lhe a mão na testa e perguntou-lhe se estava bem, se sabia o que havia acontecido e seu nome. Rosilei nada respondeu. Continuou chorando. Pelo jeito a agonia continuaria.

      Chegaram a um hospital, não sabia qual e nem em qual cidade. Puseram-na em uma maca e enfermeiros  levaram-na para um quarto, UTI, como ela conseguira ler na entrada. Fechou os olhos e lamentou muito ainda estar viva e dando trabalho para gente que nem a conhecia. A sensação de estar sendo cuidada era confortante, mesmo achando estranho todo aquele movimento a sua volta. Para quê tanto cuidado com uma pessoa desconhecida?

      Uma enfermeira ajeitou-a na cama e cobriu-a com um cobertor. Furou seu braço para receber soro e mais algum medicamento que ela nem sequer sabia. Ela sorriu para Rosilei e perguntou se estava bem. Perguntou se sabia onde estava e qual o seu nome. Não respondeu. Fechou os olhos e virou o rosto para o outro lado. Havia uma janela que dava para um jardim.

      Encostado ao muro branco, por todo ele, plantação de hortênsias, buquês de várias cores e com folhagens brilhantes. Mais ao centro uns canteiros muito bem cuidados com pés de roseira com alguns botões e ao redor bem rente ao cimento, margaridas. Todas abertas, branquinhas e deslumbrantes. Margaridas eram suas preferidas. Por um instante Rosilei se esqueceu de onde estava e se perdeu na beleza do pequeno jardim do hospital.

      Logo em seguida entrou um rapaz, ainda novo, de jaleco e óculos com armação quadrada e preta. Achou que esse tipo de armação envelheceu o jovem doutor. Sabia que era doutor porque ouviu a enfermeira dizer que o médico logo viria vê-la. Ele lhe fez várias perguntas, ela respondeu as que lhe eram convenientes e negou as outras, como seu nome e de onde era. Melhor não saber de nada. Não queria saber de nada, queria morrer. Se lembrou de estar andando, exausta, pela rodovia, sol quente a lhe queimar a cabeça, sede, muita sede, fome, depois não se lembrou de mais nada. Voltou a olhar o jardim até que adormeceu, sedada.

      Nos outros dias em que ficou internada não disse uma palavra que comprometesse seu anonimato. Esqueceria de tudo e quando saísse dos cuidados médicos, seguiria seu rumo incerto. Talvez ficaria por aquela cidade mesmo, vagando como um zumbi sem rumo. Dormiria ao relento e não comeria nada. Ainda desejava a morte. Só não contava ser tão medrosa a ponto de não ter coragem de lhe tirar a vida, de ter se jogado na frente de um caminhão ou de ter pulado de alguma ponte. Ameaçou várias vezes, mas desistiu. Preferiu definhar dia a dia, até chegar o fim. Qualquer atitude, qualquer coisa era melhor do que ficar remoendo lembranças doloridas de uma vida fútil e sem sentido, rodeada de pessoas falsas, mentiras, traições, descasos, insultos... Não queria mais viver... Andaria até encontrá-la, a morte, e assim quem sabe, caso tivesse uma outra vida além da carnal, poderia, enfim, viver em paz.

      Fim.

domingo, 11 de maio de 2014

Mães, Pães e Afins



Ser mãe é ter a certeza de um amor incondicional, a certeza de que não podemos adoecer nunca, a certeza de que temos que morrer bem velhinhas, a certeza de sentir paz enquanto o filho dorme, a certeza de que o choro fica mais fácil de se mostrar em nossos olhos, a certeza de que somos privilegiadas por Deus pra tomar conta de seres que um dia ganharão o mundo, a certeza de que somos responsáveis e que temos que fazer por merecer. 
Não importa como o filho chegue, que chegue e seja feliz ao nosso lado!

Feliz Dia das Mães, Pães e Afins!


sexta-feira, 9 de maio de 2014

Uma Mão, Um Mistério


      No trajeto de seu trabalho até o velório municipal Giordana não pronunciou nenhuma palavra. Dirigiu concentrada na visão que teria quando chegasse perto daquele caixão. Será que estaria lacrado?

      Professor de Direito Penal, Dr Sílvio era um homem sério, idoso, rígido nas suas aulas/palestras e que não gostava de ser interrompido até que tivesse concluído sua oratória. Uma inteligência fora do normal e um tanto excêntrico. Sempre vestia terno, impecável, e um detalhe chamava a atenção de todos. A mão esquerda sempre, sempre estava dentro do bolso da calça. Nunca se soube de alguém que teria visto sua mão esquerda. Será que tinha a mão esquerda? Era a pergunta geral. Do mesmo modo não havia ninguém que tivera a coragem de perguntá-lo o porquê da mão estar sempre no bolso. Não ousaria jamais. Não se sabe se pelo respeito ou pelo medo de encará-lo numa pergunta pessoal e ser fuzilado com aqueles pequenos olhos verdes. Melhor soltar a imaginação e tirar as próprias conclusões do que nadar e morrer na praia com uma resposta que poderia muito bem se transformar num trauma para o resto da vida. Quiçá até ser motivo de uma provável renúncia de uma carreira promissora, como a do Dr Sílvio.

      Giordana aproveitou o horário de seu almoço quando há mais vagas no estacionamento do velório e, sem pressa e perda de tempo, em rodar várias vezes à procura. Estava sozinha. Os outros alunos de sua turma iriam à noite. No fundo Giordana estava mais curiosa do que triste pela morte do querido mestre. Querido nem era o termo adequado, mas admirava-o muito sugando-lhe todas as palavras, tomando-o como exemplo e espelho como um excelente profissional. Se apaixonara pelo Direito depois da primeira aula ministrada por Dr Sílvio, mesmo divagando vez ou outra tentando decifrar como seria sua mão. Às vezes ficava imaginando-o levando um tropeção e tendo a necessidade de se apoiar nas duas mãos. Como se sairia? Rolaria chão abaixo mantendo a esquerda firme e segura em seu bolso? Os mais zombeteiros sempre se maginavam puxando-lhe o braço para acabar com a agonia de todos de uma vez. Mas cadê a coragem? Dr Sílvio se dava o respeito e de certa forma não permitia a aproximação demasiada dos alunos. Melhor deixá-lo quieto com sua mão misteriosa, pensavam e entravam em comum acordo. Bom para ambas as partes, assim era feito, brincavam, imitando a voz do advogado renomado e misterioso.

      No caminho entre o carro e a sala onde estava sendo velado Dr Sílvio, Giordana se sentiu sem chão. Um vazio lhe invadiu a alma que a fez chorar. Não queria entrar na sala e passar vergonha, aos prantos, com quem nem sequer era da família. Não sabia quem era a esposa, ou mesmo se havia uma esposa e filhos, e quem sabe netos também. Não conhecia ninguém da família. Já havia planejado tudo; entraria e desejaria os sentimentos para a mulher ou a pessoa que estivesse sentada na cadeira perto do caixão, que sem dúvidas seria a pessoa mais próxima de Dr Sílvio. Olharia em seu rosto e depois em suas mãos. Ou ao contrário? Não importaria, mas olharia, faria o nome do Pai, encostaria num canto e permaneceria em silêncio, em respeito, como fazia em todas suas aulas de Penal.

      Parou na entrada da sala a avistou grande parte de uma outra turma da Faculdade e alguns professores. Entrou, procurando não fazer barulho com o salto do sapato. Não havia ninguém sentado perto do caixão. Nem cadeira havia por perto. Se aproximou, de cabeça baixa, segurou o choro e olhou para a feição endurecida do professor. Sempre achou esquisito a feição de um morto. Tinha a sensação de que abriria os olhos bem na hora em que olhava-os. Estava bem maquiado, corado, sem algodão nas narinas e vestindo um terno cáqui, com gravata verde. Crisântemos brancos escondiam qualquer vestígio dos cantos do caixão. Aconchegaram a mão esquerda do lado do corpo e cobriram com as flores. A direita estava sobre o ventre, como geralmente acomodam os defuntos. Uma certa decepção tomou conta de Giordana. Olhou para o lado e se viu olhada pelos outros alunos que ali estavam. Todos com cara de interrogação, porém todos em silêncio. Olhou novamente para a mão direita, respirou fundo e se afastou.

      Talvez tenha sido melhor assim. Existem situações que são melhores não serem desvendadas. Que seja enterrado todo esse mistério da mão esquerda do professor, que sempre será lembrado, pelo homem íntegro, postura exemplar e inteligência fenomenal e, claro, pelo mistério de sua mão esquerda, jamais revelado.

      E sua família? Não tinha! Era solteiro e sozinho. Pena... Penal.

      Fim.

quarta-feira, 7 de maio de 2014

Só Imagens






















Fim.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

É Minha!


      Finalmente o celular toca... Clóvis atende aos berros perguntando do paradeiro de Agnes, sua mulher. Ela, pacientemente responde que está tudo bem e que já está chegando em casa. E desliga. Clóvis, mais irritado ainda joga o celular sobre a cama, coloca as mãos na cabeça, suspira fundo e chora.

      Vai até a janela e fica escondido atrás da cortina de forma a não ser visto por Agnes quando esta chegar. Adorava vê-la descer do carro, pendurar a bolsa no ombro, ajeitar os cabelos e caminhar jogando os quadris para os lados, se equilibrando num salto agulha. Tinha vontade de ir ao seu encontro e pegá-la no colo, poupando suas belas pernas do pequeno trajeto. Levaria-a para o sofá, aconchegando-a sobre as almofadas para depois venerá-la incansavelmente. Amava exageradamente aquela mulher. Tanto que não suporta a hipótese de não vê-la nunca mais chegando em casa.

      Após vinte minutos o portão da garagem se abre e Agnes entra com seu carro. Clóvis admira a mulher dos seus sonhos, a mulher de sua vida, a futura mãe de seus filhos, adorada e idolatrada...

      Agnes calmamente abriu a porta, colocou a bolsa sobre o sofá e foi direto para a cozinha. De cabeça erguida encheu um copo d'água e bebericou aos goles, calmamente. Já sabia o que estaria por vir.

      Clóvis, vermelho de ódio, não esperou ela terminar de engolir e lhe arrancou o copo de suas mãos. Seu olhar era de ódio, de revolta... Pegou-lhe pelo pescoço e encostou-a na parede. Olhou em seus olhos e obrigou-a a descrever com detalhes o motivo de seu atraso. Agnes nem se assustou com as ameaças do marido, pois essa atitude se tornara corriqueira. Desde o sim na frente do padre que Clóvis se transformara em outro homem. Agnes se calava para evitar o pior.

      Depois de soltá-la Clóvis se afastou e ficou olhando em seus olhos. Abraçou-a e mais uma vez declarou seu amor eterno. Agnes ficou calada, como sempre fazia, mesmo não entendendo o motivo de tanto ódio que sentira por ela. Se declarava e ao mesmo tempo a agredia. Tratava-a com indiferença e aos mesmo tempo tinha a impressão de que ele queria entrar em seu corpo e permanecer por lá, com medo de não tê-la mais nos braços. Tratava-a como abajur empoeirado esquecido num canto e no minuto seguinte exigia mil explicações sobre namorados do passado. Quase surtou quando ela lhe disse que encontrara por acaso o primeiro namorado, de infância. Ficou tão transtornado que ela precisou ficar trancada no quarto, até que ele se acalmasse. Com o tempo Agnes aprendeu a lidar com essa situação e a contornar eventuais chateações. Até gostava de se sentir venerada e desejada. Ficava excitada em ver seu marido deseja-la intensamente quando tirava a roupa sabendo que ele observava-a, quase explodindo de prazer, e depois arrastá-la para algum canto e saciar sua vontade. Tinha prazer em provocá-lo sexualmente, fazendo com que ele se tornasse seu escravo, com joguinhos de sedução e com brinquedinhos de sex shop.

      Nos momentos de ternura era um cavalheiro, intenso, apaixonado, mas bastava estarem com mais pessoas ou mesmo longe de seus olhos que já fantasiava traições, abandonos e mentiras. E culpava-a sem ao menos ter motivo. Virava um louco, chegando perto de dar-lhe uma surra por tantos ciúmes que sentia.

      Agnes se lembrou do dia do casamento, quando todos já haviam ido embora e apenas os dois ficaram no salão esperando alguém que os buscasse. Apesar de fantasiar uma noite de núpcias inusitada a atitude de Clóvis surpreendeu-a. Começou a chutar as mesas e a derrubar as cadeiras, xingando e colocando a culpa na mulher. Chorou, numa noite que seria especial. Mas entendeu o nervosismo do marido e se calou.

      Vendo-a dormir Clóvis contemplava sua musa, sua amada... Observava-a o tempo todo e cada vez mais amava Agnes. E culpava-a por tanto amor não correspondido. Amava pelos dois, vivia pelos dois, respirava pelos dois e sofria por tanto amor, uma dor física e mental que lhe fugia do controle. Quando se dava conta já tinha estourado com Agnes quando deveria amá-la.

      Quase enlouqueceu quando a mulher sugeriu se separarem. Nunca, jamais, nem em pensamento haveria essa possibilidade. Era a mulher da sua vida e se não fosse para morrer junto dele morreria sozinha. Jamais outro homem tocaria num fio de seu cabelo. Mataria se fosse preciso, mataria Agnes e depois se mataria, mas a dor de vê-la nos braços de outro jamais sentiria.

      Agnes, com toda sua meiguice, suportava calada, na certeza de que um dia as atitudes grosseiras de Clóvis se acabassem. Não o provocava, não o enfrentava, não dava nenhum motivo para nenhuma desconfiança. Amava-o, apesar de tudo. Vivia no limite entre a vida e a morte. Sabia que poderia haver um fim trágico e mesmo assim ela gostava. Se sentia poderosa tendo aos seus pés um homem capaz de matar ou morrer por ela. Achava excitante o olhar do marido quando estava com ódio e logo em seguida venerava-a. Gostava das agressões seguidas de juras de amor eterno. Amava-o a sua maneira, mesmo sabendo que qualquer dia poderia ser o último dia de sua vida.

      Fim.



   

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Presente


Abrir caixas, cestas e pacotes aos poucos é mergulhar na fantasia... A vida e o futuro são essas caixas que vamos abrindo a cada dia, sem saber o que há la dentro, sorriso ou frustração.” Artur da Távola

Um ótimo fim de semana pra todos!